Ascensão do Cisne Negro quer ser Duro de Matar, mas não tem carisma para isso

Créditos da imagem: Ruby Rose e Sam Heughan em cena de Ascensão do Cisne Negro (Reprodução)

Filmes

Crítica

Ascensão do Cisne Negro quer ser Duro de Matar, mas não tem carisma para isso

Filme da Netflix se perde em cenas de ação escuras e arcos de personagem sem sentido

Caio Coletti
02.09.2021
14h36
Atualizada em
02.09.2021
14h47
Atualizada em 02.09.2021 às 14h47

A linha narrativa central de Ascensão do Cisne Negro é familiar para qualquer fã de Duro de Matar e suas infinitas imitações: um agente da lei (Sam Heughan, astro de Outlander) tenta frustrar os planos de uma terrorista (Ruby Rose) em um cenário confinado - dessa vez, um trem parado no meio do túnel subaquático que liga o Reino Unido com a França -, colecionando machucados pelo caminho, se livrando de enrascadas inimagináveis com pouco mais do que a própria engenhosidade como arma. Mas Tom Buckingham, o herói do filme da Netflix, não é nenhum John McClane.

O roteiro de Laurence Malkin (Jogo da Morte), inspirado no livro do ex-soldado da infantaria britânica Andy McNab, posiciona Tom como o “cisne negro” do título, explicado nos primeiros segundos do filme por uma narração em off conveniente: ele é um psicopata funcional, capaz de compartimentalizar os atos violentos que cometeu na missão mais recente do batalhão de elite em que trabalha e dormir tranquilo, sem pensar duas vezes nas vidas que tirou. Tom nunca amou ninguém… até conhecer Sophie (Hannah John-Kamen, criminalmente subutilizada), sua namorada, com quem está viajando no tal trem sequestrado pelos terroristas.

Ascensão do Cisne Negro faz um paralelo entre Tom e a vilã Grace, vivida por Rose, que compartilha com ele a mesma falta de remorso - mas o filme não ousa se embrenhar nas ramificações verdadeiramente interessantes desse paralelo. Quem dera ele fosse capaz de questionar porque um dos dois é um “psicopata útil”, ou de entender como a cultura militar, especialmente em níveis de elite como os retratados aqui, é desenhada para extricar a compaixão dos indivíduos e transformá-los em máquinas de seguir ordens, não importa o quão imorais elas sejam.

Ao invés disso, Ascensão coloca que o amor de Tom por Sophie é sua característica redentora imutável, sem se preocupar em transformar ou questionar o protagonista durante a metragem excessivamente longa do filme. Este é um defeito pervasivo no roteiro de Malkin, inclusive: nenhum dos personagens criados por ele passa por qualquer jornada palpável, e as conclusões emocionais às quais eles chegam parecem simplesmente despropositadas. Não vemos como, quando ou por que Sophie passa a entender Tom em sua condição psicopática, por exemplo - o filme simplesmente nos diz, em certo ponto, que agora ela o entende.

O contraste com Duro de Matar é óbvio nesse sentido, porque a franquia estrelada por Bruce Willis sobreviveu não só por suas cenas de ação impressionantes, mas principalmente pela força e carisma dos personagens. Ascensão do Cisne Negro não tem qualquer senso de humor sobre si mesmo, nem qualquer ideia de como criar um protagonista (que dirá coadjuvantes!) que fiquem na memória do espectador depois que sobem os créditos.

Enquanto isso, o diretor norueguês Magnus Martens (The Walking Dead) rege um trabalho técnico competente mas trivial, um pouco atrapalhado pela fotografia escura de Nick Remy Matthews, que não consegue fazer as cenas de ação da trama, confinadas em pequenos espaços, funcionarem. A edição hábil de Megan Gill tenta manter o ritmo de um épico de ação minimamente envolvente, mas essa é uma batalha perdida: apesar do esforço dela, as 2h04 de Ascensão do Cisne Negro se arrastam sem um pingo de inspiração.

Ascensão do Cisne Negro
SAS: Red Notice
Ascensão do Cisne Negro
SAS: Red Notice

Ano: 2021

País: Reino Unido/Hungria/Holanda/Suíça

Duração: 124 min

Elenco: Sam Heughan, Hannah John-Kamen, Ruby Rose, Andy Serkis

Nota do Crítico
Ruim

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes.