As Viúvas

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Filmes

Crítica

As Viúvas

Longa de Steve McQueen é muito mais do que um filme de assalto protagonizado por mulheres

Natália Bridi
23.12.2018
10h46
Atualizada em
11.01.2019
01h05
Atualizada em 11.01.2019 às 01h05

O filme de assalto é um gênero cinematográfico predominante masculino. Ou os protagonistas são todos homens, ou há uma vaga feminina, alguém que por mais brilhante que possa ser nas artes do crime, no fim das contas está lá mais como interesse romântico. As Viúvas, filme de Steve McQueen baseado na série britânica de mesmo nome criada por Lynda La Plante, subverte esse quadro não apenas por ser protagonizado por mulheres. Suas personagens partem dos estereótipos da rivalidade feminina e dos papéis pré-definidos pela sociedade em relação ao sexo oposto - esposa, amante e mãe - para ressignificar as próprias histórias.

Ameaçada pelo rival do falecido marido, Veronica (Viola Davis) recebe como “herança” os planos de um grande assalto. Sem alternativas, ela decide encarar o roubo, recrutando as outras viúvas da gangue para cumprir a tarefa. Cada uma sofre as consequências da morte dos companheiros depois do trágico desfecho da sua última “missão” e precisa lidar com a contínua influência desse ofício criminoso nas suas vidas.

McQueen, que assina o roteiro com Gillian Flynn (Garota Exemplar), se preocupa em retratar a todos os personagens por completo, mesmo que a construção da narrativa não siga uma lógica linear. Beneficiada pela fotografia plácida de Sean Bobbitt (parceiro do cineasta desde Fome, de 2008), a desconexão de alguns momentos - seja em flashbacks, encontros amorosos ou breves conflitos - serve justamente para elaborar o psicológico de protagonistas e coadjuvantes. Ao final, tudo se amarrava de forma perfeita e surpreendente.

Partindo da sinopse - mulheres sem nada em comum dão continuidade às atividades criminosas dos maridos para escrever o futuro com as próprias mãos - As Viúvas poderia facilmente cair no clichê da “mulher forte”. Não é o caso. McQueen e Flynn evitam enquadrá-las em uma lógica de vingança - a fênix que renasce imponente de uma situação abusiva - que poderia subestimar suas personagens. Veronica é uma ex-amante transformada em esposa que, confortável com o estilo de vida oferecido pelo marido, não questionava a origem do dinheiro. Quando decide seguir com o plano do roubo é por estar sem saída: ameaçada de um lado, sem um tostão do outro. Em nenhum momento McQueen a desprovê do gosto pela riqueza, pelo contrário, deixando claro que a força feminina vem de todas as formas, inclusive de uma madame.

As Viúvas usa esses arquétipos sociais justamente para mostrar que há muito mais do que dizem as aparências e dá espaço para que a sororidade nasça de relações improváveis - a socialite, a sugar baby, a batalhadora, a destemida. Não se trata, porém, de uma utopia das virtudes femininas ou de rivalidade entre gêneros. Todo personagem é mais do que aparenta, seja o político racista (Tom Mulligan, interpretado por Robert Duvall), o líder de gangue com aspirações políticas (Jamal Manning, interpretado por Brian Tyree Henry), ou a pobre mãe solteira cheia de filhos (Amanda, interpretada por Carrie Coon).

Enquanto constroem esse subtexto sobre a complexidade das relações humanas, McQueen e Flynn também arquitetam um filme novelesco que é altamente gratificante como entretenimento puro e simples. O elenco de primeira linha - incluindo Davis, Duvall, Henry, Coon, Liam Neeson, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki, Colin Farrell, Daniel Kaluuya, entre outros - aproveita cada segundo em cena e entrega toda e qualquer reviravolta com gosto e precisão. É uma combinação que torna As Viúvas completo, a ponto de que o conceito da narrativa - do nada é o que parece ser - se aplicar ao longa como um todo. Esse é um filme de assalto protagonizado por mulheres e também é muito mais do que isso.

Nota do Crítico
Ótimo