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Artista do Desastre | Crítica

James Franco tem a performance de sua vida e longa prova que fazer o pior filme do mundo é tão difícil quanto fazer o melhor

Fábio de Souza Gomes
24.01.2018
17h51
Atualizada em
02.02.2018
19h05
Atualizada em 02.02.2018 às 19h05

Interpretar um personagem caricato é muito difícil. Existe uma linha tênue que pode levar o ator a extremos completamente opostos, deixando a atuação ridícula e forçada ou fantástica e genial. Em Artista do Desastre, James Franco tem a interpretação de sua vida ao dar naturalidade a uma das pessoas mais misteriosas e excêntricas que já apareceram no cinema, o diretor, ator, produtor e roteirista Tommy Wiseau. 

Baseado em fatos, o longa gira em torno da amizade de Wiseau com Greg Sestero (Dave Franco) – que no início do filme não passam de dois atores amadores que sonham em conquistar Hollywood. Após serem rejeitados em testes e fracassarem na cidade das Estrelas, eles se unem com a melhor das intenções, mas acabam fazendo aquele que é considerado o pior filme de todos os tempos: The Room.

Viver um homem como Wiseau não é fácil, pois o ator é uma caricatura humana. Seu jeito de andar, seu jeito de falar e a maneira de seu vestir tornaram esse homem em um dos seres mais peculiares da indústria. Deixar isso natural é muito difícil e assistir a construção de Franco é fantástico. 

A maneira de andar, sempre meio curvada e dura, está muito próxima a do retratado. Some isso a maquiagem, que deixou um de seus olhos meio caído como o de Wiseau, e a maneira de falar, reproduzindo com perfeição o desconhecido sotaque do “cineasta” (destaque especial vai para risada jogando a cabeça para trás). Ele está ótimo e natural e, se você tem dúvidas de sua performance, ao longo dos créditos Franco compara as cenas originais de The Room com as reproduções feitas em O Artista do Desastre. Todos estão muito bem, mas Franco é sem dúvida o grande destaque dando realidade ao protagonista que jura de pés juntos que veio de Nova Orleans (mas claramente é de outro país). Seu trabalho físico é acima da média, mas seu trabalho psicológico é melhor ainda.

Franco encontrou uma linha de raciocínio que mostrou a humanidade de Wiseau. Apesar de não entender nada de atuação, ele leva a nobre arte muito a sério. Seu discurso antes do primeiro dia de gravação de The Room mostra o quanto ele acredita no que está fazendo, o quanto crê que o filme dará certo e como visualiza o sucesso. Ele é apaixonado, sonhador e, acima de tudo, não tem ideia do que está fazendo. Em todo momento rimos de seus comentários e ações, mas nunca de sua dor. 

Seu contraponto é Sestero, que é vivido por Dave Franco. Apesar dos protagonistas serem irmãos na vida real, eles não poderiam ser mais diferentes fisicamente no filme. Contudo, o garoto é tão sonhador quanto Wiseau – e também não faz ideia de como atuar. Greg tem medo do palco, trava na frente das pessoas e fica admirado com Wiseau simplesmente porque o amigo de sala não tem medo de passar vergonha na frente dos outros estudantes (fazendo uma cena sem nexo nenhum onde grita "Stellaaa" como Marlon Brando fez em Uma Rua Chamada Pecado). O momento tinha tudo para ser constrangedor, mas ele fica hilário, épico e mostra qual será o tom do filme.  

Apesar do resultado dessa jornada ser o lançamento do pior filme do mundo, James Franco, que também é o diretor, não faz um filme pessimista. Sim, a jornada de Wiseau e Sestero termina no lado oposto que eles sonhavam, mas acima de tudo esse é um filme sobre amizade e sucesso, afinal, o objetivo deles de marcar história com um filme deu certo – só que ao contrário.

A maior prova disso está logo nas primeiras cenas, onde atores, atrizes e diretores de Hollywood como Adam Scott, Danny McBride, Kevin Smith e até mesmo J.J. Abrams, diretor de Star Wars: O Despertar da Força, explicam o quanto o filme é marcante. O Artista do Desastre revela a construção de um dos mais peculiares filmes de todos os tempos e mostra que fazer o pior filme da história é tão difícil quanto fazer o melhor. 

Nota do Crítico
Ótimo