Filmes

Crítica

Arábia | Crítica

As Mil e uma Noites (e dias, e noites, e dias)

Marcelo Hessel
11.04.2018
19h02
Atualizada em
25.04.2018
18h25
Atualizada em 25.04.2018 às 18h25

Assim como nas Mil e uma Noites, é antes de mais nada o potencial transformador do relato que marca o filme Arábia. Para Xerazade a narrativa dos contos se encerrava em si mesma, tinha um propósito muito claro de autopreservação dessa própria narrativa, e, da mesma forma, o filme de Affonso Uchôa e João Dumans parte da consciência do relato (seus engenhos, suas possibilidades) para enformar e transmitir sua visão de mundo.

Acompanhamos a história elegiática de Cristiano (Aristides de Sousa), um operário de uma fundição em Ouro Preto, que depois de ser apresentado no ponto de vista de outros personagens da cidade começa então a narrar sua própria vida adulta, machadianamente (mas sem ironias). Cristiano o faz com a humildade e o desinteresse de quem trocava um trabalho braçal por outro e assim organizou sua existência em função da mecanicidade com que encarava trocas efêmeras de relacionamentos, amizades, serviços contratados.

A narração em off desafetada de Cristiano demarca a singeleza do relato, que aos ouvidos do espectador parece simplória demais, trivial demais - mas nisso se esconde o primeiro engenho de Uchôa e Dumans. Enquanto protagonista de sua própria história passada, afinal, Cristiano enxerga a totalidade do relato mas não tem um compromisso dramatúrgico de fazer dele uma narrativa psicanalizada, autoconsciente. Isso fica a cargo do filme em si, que usa a empatia que criamos por Cristiano para estabelecer o nervo emocional de uma experiência que se irradia do nervo de forma bastante intelectualizada e sofisticada, do ponto de vista da mise-en-scène.

Nisso, o filme se parece muito com o Tabu de Miguel Gomes, e é com o cinema do diretor português que Uchôa e Dumans formam um dos diálogos de Arábia, não apenas emulando As Mil e uma Noites, como Gomes também fez, mas principalmente buscando uma linguagem cinematográfica que usa o relato oral, o folclore regional, a cultura popular e a memória coletiva para estofar uma narrativa capaz de transcender o mundano, o presente.

Essa busca pelo transcendental tem em Arábia o propósito de despertar não necessariamente todos os sentidos, mas principalmente a consciência. Outro diálogo que Uchôa e Dumans estabelecem é com o cinema do também mineiro Cao Guimarães, particularmente na preocupação de organizar enquadramentos e informações de contexto dentro do quadro com uma sensibilidade de artes plásticas; em Arábia, porém, essa preocupação tem uma visível conotação política que não fica tão clara facilmente em Guimarães. A relação do homem com seu labor em Arábia se dá muitas vezes pela invisibilidade, pelo desaparecimento, nos planos bem tableau de Cristiano entre caixas empilhadas, poeiras de mineração, rolos gigantes de tecelagem. Se o trabalho dignifica o homem, como dizem, então a tomada política de consciência de Cristiano em Arábia visa justamente entender - entre tantos ofícios sem recompensa aparente - que dignificação é essa.

O lugar do homem no mundo é o do trabalho? O filme fecha com a imagem de um cabo de faca depois de recorrer com frequência a muitas imagens de ação laboral e objetos funcionais (e, por que não, da objetificação desse homem), enquanto as poucas mulheres mostradas ao longo de Arábia conservam, muito por uma questão social, a responsabilidade de zelar pelas relações humanas, seja no cuidado com velhos e crianças, seja na própria função de gestão da papelada de uma empresa. Que abismo entre homens e mulheres é esse?

É muito fácil enxergar em Arábia um discurso anticapitalista, por conta de todo o crescendo que o filme constrói sem pretensão até o final em que o off de Cristiano muda de chave para uma conclusão totalizante. Mas se refugiar somente nessa leitura impede que se perceba como Uchôa e Dumans estão organizando seu relato cheio de camadas de simplicidade e sofisticações em busca de um resgate dos afetos, entre homens, entre homens e mulheres, entre o homem e seu ofício e, afinal, entre o homem e o mundo. Nesse ponto, um diálogo bastante estreito que Arábia também faz é com o cinema de André Novais (estreito porque Novais também é da turma de cineastas de Contagem e seu irmão Renato Novaes faz uma participação em Arábia), cujo Ela Volta na Quinta também trata do resgate dos afetos em um mundo que os perde pela brutalização das relações pessoais, de trabalho, sociais.

Ao unir todos esses parentescos em um projeto muito consciente de articulação político-sentimental do discurso, Arábia trata a nutrição e a manutenção da memória como uma responsabilidade social. No Brasil de 2018, que mais do que nunca se apresenta para nós como o infame país sem memória, talvez não haja chamado mais pertinente do que esse.

Nota do Crítico
Excelente!