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Aquarius | Crítica

Do que são feitas as memórias

Marcelo Hessel
31.08.2016
17h25
Atualizada em
31.08.2016
17h37
Atualizada em 31.08.2016 às 17h37

Especialidade de Kleber Mendonça Filho nos seus curtas e no seu primeiro longa de ficção, O Som ao Redor (2012), o cinema de tensões e de suspense crescente cede um pouco o lugar em Aquarius à busca pela empatia. Essa percepção de que o filme - que desde sua primeira exibição pública em Cannes não foge à sua vocação política - só está atrás de enfrentamentos é uma noção equivocada que não se consuma no filme em si.

A trama segue Clara (Sônia Braga), jornalista e crítica de música, viúva, última moradora do Aquarius, edifício antigo na valorizada orla da praia da Boa Viagem, Recife. Personificada no engenheiro Diego (Humberto Carrão), que quer derrubar o Aquarius, a especulação imobiliária é o pesadelo que assombra os dias e as solitárias noites de Clara. KMF esboça aqui um suspense de mal estar social parecido com o de O Som ao Redor, também próximo do terror, simbolizado no véu do arranha-céu vizinho que avança sobre a janela de Clara como um fantasma de fato.

O diretor se especializa nesse tipo de tensão porque sabe ditar muito bem a disrupção, o compasso dos cortes, o ritmo que passa da calmaria ao incômodo e o choque. Em Aquarius, sempre que um plano se interrompe de repente, no latido de um cachorro, no salto de um gato, é como se a câmera se assustasse com o ruído, e isso nos deixa num estado permanente de pavor, sempre à espera do pior. Ver dois carros em marcha a ré numa mesma garagem (que KMF filma em plano fechado para nos deslocar espacialmente e aumentar o incômodo) se transforma, de repente, numa espécie de colisão psicossomática.

Embora não negue o confronto, porém, Aquarius está atrás de outra coisa. Por ser uma história de resistência contra o medo, não faz sentido alimentar até o fim nos próprios protagonistas de Aquarius esse sentimento que KMF instilava tão bem por todo O Som ao Redor. E aos poucos o filme começa a se desenhar de fato como um manifesto pelo afeto. Se parecia um pouco constrangida no início, a festa de aniversário nos anos 1980 que abre o filme, por exemplo, logo se transforma num dos muitos alicerces da empatia que o filme se esmera em levantar. Aquarius se parece um pouco com O Franco Atirador (1978) nesse sentido: a atenção estranhamente dedicada a uma longa cena de abertura deslocada da trama, uma festa em família, para fornecer a base emocional da história de fato que vem a seguir.

Estabelecer esses laços do zero é importante em Aquarius porque, embora o filme trate da preservação da memória, existe uma preocupação de não fazer da memória algo estanque, saudosista. KMF não está interessado em nostalgia, em resumo, como a própria Clara deixa claro, impaciente, quando é entrevistada sobre vinis e mp3. Como falar de memória sem o saudosismo? Mostrando a memória no agora, em construção. Então, seus momentos que teoricamente seriam tempos fracos (o aniversário no início, outro aniversário na laje, os passeios com o sobrinho, a tarde olhando fotos com a família, momentos que não fazem mover a trama principal) são aqueles responsáveis por dar substância a essa memória.

Embora o diretor tenha um referencial próprio, mais amplo, talvez por conta do seu trabalho prévio como crítico de cinema, que vai de John Carpenter a Elia Suleiman, Aquarius se aproxima do tipo de dramaturgia que se tornou a vanguarda oficial no Brasil nos anos 2000, em filmes como No Meu Lugar (2009) e no cinema de Beto Brant e Karim Aïnouz, preocupados com os tempos fracos como consolidadores da narrativa. Há as variações. Se em Cão sem Dono (2007) de Brant as conversas do protagonista homem no bar, na rua, ajudam a dar forma e entendimento ao seu drama pessoal, em Aquarius (um filme que também valoriza a solidão como um tempo de autodescoberta) o ponto de vista feminino acaba inevitavelmente se confundindo com um senso de maternidade e família: a memória de Clara se constrói não sozinha mas em torno dos seus.

E acaba sendo uma coisa muito bonita em Aquarius quando a tendência de KMF ao estranhamento (planos e contraplanos que vão aumentando com zoom-ins, como se silenciosamente fossem estabelecendo e alimentando um atrito) se revela na verdade uma procura pelo entendimento. Isso fica mais evidente na cena, na sala do apartamento, em que Clara fica observando, encantada, a namorada do sobrinho. O que ela vê na menina? No que pensa? O filme não verbaliza, nem precisa, porque entendemos que Clara está gravando na mente aquele momento, que automaticamente se torna mais uma memória para protegê-la do que é mau ou incerto.

A memória, no mais, traz consigo o bom e o ruim, indiscriminadamente. Aquarius não coloca seus personagens numa bolha de segurança (embora essa seja a função do apartamento de Clara), nem se esquiva do mal estar. Há fantasmas sociais que realmente ganham corpo em cena (o maior golpe de Diego contra Clara não seria outro senão atacar sua culpa burguesa de patroa aposentada) e, se KMF comete um exagero, é o da tentação de fazer do filme uma cornucópia das nossas mazelas: a menção às ligações religiosas de Diego, a cena dos crentes, a insinuação de um envolvimento político de um filho de Clara, tudo isso fica meio perdido dentro de Aquarius, a título de "painel completo do Brasil".

São arestas de um filme no geral muito bem acabado, que foi pensado e feito por um diretor ciente não só do que queria dizer mas principalmente consciente da presença absolutamente magnética de Sônia Braga, que entra em cena pela primeira vez com uns bons 20 minutos de filme, vestida com uma saída de praia branca, da esquerda para a direita, tocada pelo vento, diante da janela do apartamento, carregando consigo toda uma história do cinema brasileiro - uma memória não dita que, mesmo assim, transpira neste filme onde as memórias ganham corpo e alma.

Nota do Crítico
Excelente!