Aquaman

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Crítica

Aquaman

DC abraça a fantasia e transforma Aquaman

Thiago Romariz
11.12.2018
20h30

Aquaman foi motivo de piada por muitos anos. Sua participação nos quadrinhos, por décadas, foi limitada a aparições secundárias e aventuras de pouca importância. Com o passar dos anos, o personagem ganhou espaço, mas nunca deixou de ser motivo de chacota - Cartoon Network e os Super Amigos ajudaram. Com a nova era da DC no cinema, porém, Zack Snyder transformou o Rei dos Mares, antes loiro e esbelto, em um brutamontes de cabelos longos vivido pelo tatuado Jason Momoa. Mas, para quem esperava mais uma empreitada sombria e densa, este filme desvirtua toda a premissa estabelecida nos longas anteriores do universo da editora.

Aquaman é um carnaval de cores, criaturas e luzes. Um desfile de monstros e batalhas embaixo da água. Épico como Homem de Aço, mas sem a sisudez característica dos filmes de Snyder. O longa se sustenta pela identidade e respeito que tem à história do personagem, ainda que seja feito de altos e baixos extremos. O roteiro, simplório e sem nenhuma inspiração na parte cômica, abraça o ridículo e o transforma em algo heróico e condizente com a história do personagem. Além da excelência visual, o maior trunfo de Aquaman é ser ousado suficiente para apostar em uma estética cafona, mas hipnotizante, e que é potencializada por uma direção frenética do australiano James Wan.

A missão não é só apresentar o Aquaman, mas toda a mitologia dos Sete Mares, incluindo a história do maior reino deles: Atlântida. Arthur Curry, filho da Rainha Atlanna com o pescador Thomas Curry, precisa reaver o trono que é seu por direito para evitar uma guerra entre a superfície e os reinos subaquáticos, que serão comandados por seu irmão, Orm. A tradicional negação do dever é a motivação inicial do protagonista, que é incentivado pelo seu par romântico, Mera, vivida por Amber Heard. E é da relação de ambos que vem a maior parte dos erros de Aquaman. Resumir somente na falta de química do casal seria injusto, já que as falhas se alastram para quase todos os momentos cômicos entre os dois. Heard não segura a mínima carga dramática necessária para criar empatia, nem Momoa consegue ter timing cômico para se tornar engraçado. É só constrangedor ver a relação dos dois evoluindo.

A apresentação do mundo aquático, por outro lado, é um deleite para os olhos. Toda a direção de arte transmite a sensação de escala épica compatível com a grandeza da mitologia do herói. Mais que isso, Wan consegue tornar suas esquisitices de design em uma fantasia nunca vista em um filme do gênero - Aquaman é, possivelmente, o longa de herói mais bonito feito até aqui. Sem vergonha da breguice, exagero de cores ou neon, o filme flerta com o cafona a todo instante e está confortável com isso, o que acaba criando um universo rico e único. Se sentir em Atlântida é um dever mais do que cumprido, assim como a credibilidade alcançada na diversidade de espécies naquele mundo. Ninguém parece genérico, nada parece gratuito e quase tudo parece vindo direto de uma discoteca dos anos 1980, com fantasias e sons que se conectam pela psicodelia e têm quase nenhum sentido junto - mas no fim das contas, tudo combina.

É fato que Momoa se diverte como Aquaman, mas ainda sofre com qualquer exigência que vá além de seu carisma mudo e instantâneo. Por outro lado, Patrick Wilson se destaca por incorporar o tom exagerado do filme com seu ótimo Orm. De armadura cintilante e loiro impecável, o Mestre dos Mares compõe outro êxito do filme, ao lado do Arraia Negra vivido por Yayha Abdul Mateen II. O primeiro incorpora a megalomania de um filho que teve o trono negado, enquanto o outro é a personificação da vingança simples e pura. Os dois funcionam bem e são ajudados pelo visual impecável, construído a partir dos quadrinhos de Ivan Reis e Geoff Johns - boa parte dos povos, aliás, são inspirados no arco da dupla.

Com Aquaman, James Wan assinou um filme de herói com suas virtudes e falhas. Tem um visual excelente, ação com escala, impacto e tensão, mas peca na hora de criar relações verdadeiras entre os personagens. Apesar disso, o mundo criado ao redor do casal protagonista é tão bem estruturado e tem identidade tão particular que tais defeitos são sobrepostos. A coragem de rir do próprio ridículo, colocando o herói para falar com peixes ou cavalgar um cavalo marinho, dão ainda mais crédito ao filme. Consciente da fantasia que propõe, Aquaman se diverte como nenhum outro herói da DC se divertiu nos últimos anos e leva o público junto, sem vergonha de ser quem é.

Nota do Crítico
Ótimo