Apóstolo

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Filmes

Crítica

Apóstolo

Mesmo com ritmo duvidoso, Netflix acerta ao apostar em longa visceral que mistura suspense com um horror repulsivo

Matheus Bianezzi
20.02.2019
12h37
Atualizada em
20.02.2019
13h01
Atualizada em 20.02.2019 às 13h01

Em 2011, Gareth Evans criou um clássico underground instantâneo ao apresentar Operação Invasão. A ação policial indonésia conta com lutas frenéticas, coreografias refinadas e um clima urbano opressor. Se você achou que Apóstolo seguiria o mesmo rastro, vai se surpreender. Dando voz a um suspense perturbador, a Netflix apostou no diretor galês e teve como resultado um de seus filmes originais mais empolgantes até o momento.

A trama é envolta por várias camadas que vão se desintegrando, junto da sanidade dos personagens. O enredo segue a jornada do atormentado Thomas Richardson (Dan Stevens), um ex-padre que volta para sua casa anos após ser considerado desaparecido. Ele descobre que não é o único de sua família com problemas: sua irmã foi raptada por cultistas e está sendo mantida refém em uma ilha. Tomando a missão para si mesmo, o protagonista parte em busca de sua irmã, infiltrando-se no isolado pedaço de terra. Não demora muito para ele perceber que alguma coisa está fora dos eixos. Guiada por sádicos religiosos que beiram a irracionalidade, aquela nova sociedade parece estar apodrecendo aos poucos.

O que começa como um suspense bucólico com uma estética tradicional do começo do século 20, vai se transformando em um filme de horror gore com pitadas mitológicas. A tensão muda completamente. Cenas escuras em matas sombrias dão lugar à torturas frias e secas. Além de ser muito desconfortável assistir um crânio sendo perfurado, o mais perturbador se deve ao fato dos fiéis de tal religião presenciarem a cena com naturalidade. Para eles, tal sacrifício é o que os levará à fartura. O longa fica mais terrível quando esse conceito se mostra mais literal do que parece… Embora essa mudança de gênero surpreenda o público e seja responsável por não deixar a narrativa monótona, há um certo problema de ritmo. A primeira metade, onde os personagens e o mistério são desenvolvidos, é lenta e arrastada. O segundo ato, por sua vez, em busca de uma conclusão, se atropela nos próprios baldes de sangue.

Em um elenco com premiados atores e jovens promessas se estabelecendo no mercado, é comum existir certo desnivelamento. Em Apóstolo, esse padrão é bem sutil. Dan Stevens, que viveu a Fera no recente live action da Disney e protagoniza a série Legion, entrega uma performance poderosa. Mesmo beirando a caricatura em certos momentos, o viciado em remédios convence como protagonista e atua de forma bastante enérgica. A sequência de tiques faciais com que interpreta incomoda levemente, principalmente no começo, mas, ao passo que o filme se torna uma ação sangrenta, tais detalhes são absorvidos pelo desempenho do ator.

O rosto escalado mais conhecido é o de Michael Sheen. Vivendo o Profeta Malcolm, líder e criador da utópica ilha, sua atuação é bastante honesta. O material disponível é um pouco raso, afinal, o passado do personagem é bastante enevoado e mal explorado. Mesmo assim, Sheen interpreta de uma maneira comprometida, dando vida à irracionalidade que o antagonista necessita. Por outro lado, quem realmente rouba a cena é o ator Mark Lewis Jones, como o cruel Quinn. Nunca se resumindo a um estereótipo, o personagem começa como o capataz da organização, fazendo todo trabalho sujo ordenado por Malcolm. Conforme os minutos vão passando, a loucura tirânica de Quinn vai ganhando alma. É ele quem estrela a cena de tortura mais chocante do filme, tão gráfica quanto produções orientais que o diretor Evans gosta de flertar. As passagens mais violentas lembram bastante animes como Goblin Slayer, ou até mesmo o mangá Fragmentos do Horror, de Junji Ito.

Apóstolo surpreende pela qualidade técnica imposta tanto pelo diretor Gareth Evans quanto pelo diretor de fotografia Matt Flannery. Unindo câmeras precisas com uma plástica folk bonita e ao mesmo tempo opressora, o filme tem uma grande capacidade de imersão visual. Mesmo assim, não é perfeito. O ritmo é confuso e exige do público uma capacidade camaleônica para ter tanto paciência nos primeiros atos quanto concentração no acelerado final. Apesar do tempo investido ser válido, tome cuidado: talvez seja melhor não assistir à noite ou de madrugada. A capacidade de Apóstolo causar pesadelos sanguinolentos é alta.

Nota do Crítico
Ótimo