Espíritos Obscuros evita armadilhas do horror elevado e convence no final

Créditos da imagem: Searchlight/Divulgação

Filmes

Crítica

Espíritos Obscuros evita armadilhas do horror elevado e convence no final

Filme se faz na energia dos choques de registros - do realismo vs gótico ao bom gosto vs gore

Marcelo Hessel
27.10.2021
14h51

Que coisa maravilhosa é contar histórias, porque às vezes basta uma pequena variação no registro para descaracterizar ambientes e alterar expectativas. O terror Espíritos Obscuros começa com planos gerais da cidadezinha fictícia de Cispus Falls, cujas águas ladeiam uma densa floresta de pinheiros, típica do Noroeste dos EUA, mostrada no filme em processo de desmatamento para servir à indústria local. Fosse um thriller psicológico padrão, essa sugestão de ruína na paisagem natural se prestaria a embalar uma trama policial sobre o pior do homem, movida a investigação forense. Como estamos diante de um horror sobrenatural, porém, a floresta e suas deformações se transformam em outra coisa.

A distinção entre o que é real e o que é fantástico está na exposição do filme e nunca se perde de vista. Keri Russell interpreta uma professora de primário que retorna a Cispus Falls depois de muitos anos; aos alunos ela ensina o que é conto de fadas e explica que essas narrativas mitológicas estão na base do nosso entendimento de mundo. É a senha para que os acontecimentos inexplicáveis de Espíritos Obscuros se desenrolem tendo sempre essa perplexidade como bússola: como uma criatura originada no folclore pode se provar terrivelmente real?

Essa preocupação em lastrear o horror no naturalismo é um traço característico do infame “horror elevado” e este Espíritos Obscuros - um filme que atraiu protagonistas respeitáveis, nas figuras de Russell e Jesse Plemons - poderia cair na armadilha do cinema de prestígio se não tivesse alguns nomes mais afeitos ao horror B, como Guillermo Del Toro na produção e Nick Antosca no roteiro. Se de um lado a presença do diretor Scott Cooper (de Coração Louco) sugere um registro “elevado”, afinal Cooper já teve filmes reconhecidos no Oscar e este é o primeiro terror sobrenatural de sua carreira, quem dá o contrapeso é Antosca, autor do conto que deu origem ao filme e cuja vocação para o trash se verificou neste ano em Vingança Sabor Cereja.

Saber que Del Toro tem uma predileção pelo gótico contribui para a percepção de que os cenários de Cispus Falls poderiam passar por florestas sombrias da Alemanha natal dos irmãos Grimm, no século 18. O fato de esses contos de fadas - a exemplo da trama de Espíritos Obscuros - sempre colocarem crianças sob o fardo do mundo dos adultos é o que permite o paralelo. O espectador sabe logo de cara que a premissa do filme envolve monstruosidades, mas o que faz este thriller de desaparecimento, trauma e abuso infantil migrar de vez para o registro fantástico está tanto na criatura em si quanto na sugestão de uma ambientação gótica. É um pouco como naquela cena de pesadelo de conto de fadas, em que os galhos secos das árvores se tornam dedos monstruosos na luz do relâmpago.

Ou seja, muito do sucesso de Espíritos Obscuros vai depender dessa constante transação entre o real e o fantástico, dado que o primeiro nunca é abandonado de vez em favor do segundo. Esse atrito gera alguns dos momentos mais interessantes do filme, como a perplexidade que paralisa o personagem de Plemons, xerife novato da cidade, em um semblante quase de choro quando ele descobre que a violência em Cispus Falls não é de ordem natural. O cinema de horror nos acostumou mal quando personagens rapidamente assimilam a evidência do sobrenatural - porque afinal os filmes não podem simplesmente se abandonar a um estado de choque - e aqui a principal contribuição de Scott Cooper, um diretor afeito ao realismo, é entender que a perplexidade é ingrediente central na sua receita.

Enquanto precisa que os dois registros avancem lado a lado - a revelação dos traumas do thriller psicológico e o desnudamento do horror sobrenatural - Espíritos Obscuros fica manco por um tempo, porque o segundo, além de mais atraente, parece ter muito mais potencial do que o primeiro. Talvez se levasse até o limite o acerto de contas entre a professora e o xerife (que compartilham um trauma do passado mas parecem contidos na hora de expurgar de fato na ação esses ressentimentos) o filme conseguisse empatar melhor a dinâmica.

De qualquer forma, a partir do terceiro ato o sobrenatural reivindica o protagonismo, e Espíritos Obscuros troca a narrativa vacilante do miolo por um clímax realmente digno desse nome. A escolha por efeitos visuais com prostéticos e maquiagem faz toda a diferença - seja na hora em que a criatura se revela, seja quando testemunhamos no detalhe a autópsia dos estragos - porque um aspecto mais digitalizado romperia o acordo, firmado desde o início, que nubla os limites entre o real e o fantástico. É preciso que o sobrenatural, mostrado sem pudores, continue parecendo real para que o encanto não se quebre, afinal.

A lealdade a esse acordo, levada até o final, permite que Espíritos Obscuros o transcenda, e o filme acaba descobrindo algumas imagens de assombro, a título de síntese. Uma delas é o plano em que sobrevoamos a viatura na estrada no meio da noite (alguém ainda vai escrever um ensaio sobre como a popularização dos drones mudou a percepção de escala e atmosfera nos suspenses). A ação do carro penetrando na floresta, como se o giroflex azul e vermelho abrisse com luz um corte na escuridão mítica, é o resumo poético dessa tensão entre o real e o fantástico, entre o mundo dos homens e a dimensão do sonhado, embate esse vivido não sem violência.

Espíritos Obscuros
Antlers
Espíritos Obscuros
Antlers

Ano: 2021

País: EUA

Classificação: 16 anos

Duração: 99 min

Direção: Scott Cooper

Roteiro: C. Henry Chaisson, Scott Cooper, Nick Antosca

Elenco: Scott Haze, Sawyer Jones, Jeremy T. Thomas, Keri Russell, Jesse Plemons

Nota do Crítico
Ótimo

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