Annabelle 3: De Volta Para Casa

Créditos da imagem: Annabelle 3: De Volta Para Casa/Divulgação

Filmes

Crítica

Annabelle 3: De Volta Para Casa

Reduzindo os sustos baratos e piadas fora-de-hora, quinto derivado de Invocação do Mal é o primeiro verdadeiramente bom

Arthur Eloi
27.06.2019
19h48

Na era dos universos cinematográficos, expansões televisivas, prelúdios e extensões transmidiáticas, é fácil ter uma visão cínica de franquias. Os vários derivados de Invocação do Mal não ajudam a aliviar a impressão: ainda que todos tenham tido sucesso financeiro, nenhum realmente conquistou o público do mesmo jeito que os filmes originais de James Wan, com títulos recentes como A Freira (2018) e A Maldição da Chorona (2019) desgastando ainda mais a fórmula. É assim que Annabelle 3: De Volta para Casa chega sem expectativas para atender - e, dessa forma, surpreende.

A trama vai ao limite para se contextualizar na cronologia, se passando após o primeiro longa principal e Annabelle (2014), mas antes do segundo Invocação (2016). É um período com pouco material para explorar, trazendo uma ocorrência em que Judy (Mckenna Grace), filha do casal Warren, é atormentada por assombrações em casa e precisa combater os espíritos trazidos pela presença da boneca sem a ajuda dos pais. A garota conta apenas com sua babá Mary Ellen (Madison Iseman) e a amiga Daniela (Katie Sarife), responsável por iniciar todo o caos ao tentar invocar a alma de seu pai na sala de artefato dos demonologistas.

A premissa é pouco empolgante, mas o diretor e roteirista Gary Dauberman - veterano da franquia e de filmes como It: A Coisa em seu primeiro trabalho no comando - usa a simplicidade narrativa para desenvolver a tensão com cuidado. O resultado é um longa que se distancia do que torna os derivados tão cansativos, como o excesso de sustos baratos e piadinhas fora de hora. Annabelle 3 é facilmente o capítulo mais sóbrio, com atenção especial para construir a atmosfera do medo sem necessariamente “vingá-la” com um susto - o que compensa a previsibilidade da fórmula da série e deixa o espectador em estado de alerta. Pode parecer algo irrelevante de primeira, mas que cria um clima muito mais pesado do que qualquer um de seus antecessores. Apreço pelo terror puro que é mantido por quase toda a experiência.

A bagagem de Dauberman no gênero fica evidente não só pelo controle do silêncio, como também nos momentos de susto: o conceito de Annabelle ser um “conduíte para espíritos malignos” é manifestado através das assombrações “brincando” com elementos do cenários, como uma luminária infantil projetando sombras contorcidas nas paredes, ou então uma cena em que Daniela passa a assistir seus próprios movimentos em uma antiga televisão, que exibe um possível futuro imediato sangrento para a garota. A sala de relíquias dos Warren é um prato cheio, e o filmeé o primeiro a efetivamente abocanhá-lo - mesmo que o ato final quase transborde por seus excessos.

Annabelle 3 é facilmente o melhor derivado de Invocação do Mal. Porém, mesmo com ritmo e muita criatividade nos ataques sombrios, o filme não se livra do peso de ser uma adição tardia à franquia. Sua originalidade é um verdadeiro refresco aos fãs calejados, e é sempre bom ver a dupla de Patrick Wilson (Ed Warren) e Vera Farmiga (Lorraine Warren) novamente, mas é difícil não perceber a mesma estrutura formulaica que fez A Freira e A Chorona serem mesmice preguiçosa, levantando dúvidas sobre quanto fôlego ainda há nisso tudo. Questionamentos céticos a parte, pelo menos o futuro imediato parece animador o bastante: Wilson e Farmiga já estão rodando Invocação 3, Dauberman se provou ser um diretor tão bom quanto roteirista, e o público - que aguentou quatro expansões mornas - agora recebe um presente pela paciência na forma de uma boneca com sede de almas.

Nota do Crítico
Ótimo