Jude Law

Créditos da imagem: Warner Bros./Divulgação

Filmes

Crítica

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

Feito para fãs, segundo filme da nova franquia do mundo bruxo é um passeio que custa a levar a história adiante

Natália Bridi
13.11.2018
14h56
Atualizada em
14.11.2018
02h13
Atualizada em 14.11.2018 às 02h13

Animais Fantásticos e Onde Habitam iniciou uma nova etapa do mundo bruxo nos cinemas. Pela viagem de Newt Scamander (Eddie Redmayne) aos Estados Unidos, J.K. Rowling ampliou as fronteiras do seu universo mágico e estabeleceu, ainda que indiretamente, os pilares para uma nova série de filmes. Os Crimes de Grindelwald, o segundo de cinco títulos planejados, continua a narrativa dos acontecimentos que eventualmente levarão ao nascimento de Harry Potter e torna evidente a forma nada convencional de Rowling contar essa história. A autora, roteirista absoluta da nova franquia, trata cada filme como o capítulo de um livro.

Essa constatação esclarece as muitas pontas soltas do primeiro Animais Fantásticos e a falta de estrutura cinematográfica da sua continuação. “Texto de apresentação”, a primeira aventura de Newt foi concluída pelo fim da viagem. Ao mesmo tempo, tramas paralelas introduziram diversos conceitos necessários para os próximos filmes, incorporando-os ao arco principal - como o Obscurial e o próprio Grindelwald - mas sem necessariamente desenvolvê-los. O novo capítulo se mantém assim, apenas direcionando esses elementos para a próxima etapa.

Newt é o único personagem com espaço para crescer, uma vez que a sua participação além das atividades destinadas a um magizoologista é justificada. Já o vilão-título diz muito e faz pouco, com suas transgressões limitadas à retórica. Surpreende, porém, que Johnny Depp dê espaço ao personagem. Sua persona caricata não desaparece, mas serve a Grindelwald, tornando o bruxo minimamente interessante mesmo com tão pouco tempo para dizer a que veio.

Não que o filme seja curto, mas as suas mais de duas horas são divididas entre muitos personagens e subtramas. Se Newt é o único a crescer, é em detrimento do desenvolvimento dos demais (e também graças ao carisma de Redmayne). Leta Lestrange (Zoë Kravitz), cuja importância foi sugerida no primeiro longa, tem seu peso reduzido a uma grande cena de explicação. Sua relação com os Scamander permanece pouco explorada - Rowling não sente necessidade de entrar em detalhes sobre como a bruxa teria tido um romance com Newt, mas acabou noiva de Theseus (Callum Turner). O auror, por sua vez, serve mais como engrenagem do que personagem de fato: fundamental na construção emocional do irmão e da sua relação com as políticas do mundo bruxo, mas sem chance para existir além do posto de interlocutor.

Há também um esforço visível para manter os personagens do primeiro filme dentro da trama geral, com Queenie Goldstein (Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler) simplesmente aparecendo em Londres e sendo jogados de lá para cá sem outra motivação além de permanecerem na história. Tina (Katherine Waterston), embora tenha mais motivos para retornar, está lá mais para que Newt tenha com quem conversar. Já Credence (Ezra Miller) é o grande “MacGuffin”, um dispositivo do enredo, que serve para enviar todos a Paris, incluindo Grindelwald, mas tem apenas alguns lampejos de existência dentro da narrativa. O jovem Dumbledore, por outro lado, é a grata surpresa entre tantas histórias paralelas, tanto pelo encaixe de Jude Law no papel, como pela complexidade da sua relação com o antagonista. Designada ao fundo, no entanto, essa conexão romântica entre opostos se mantém como promessa, a ser desenvolvida nos próximos capítulos.

Visitar o mundo mágico continua a ser um passeio agradável e o já tradicional esmero visual permanece inalterado, seja no design de produção assinado por Stuart Craig ou nos figurinos de Colleen Atwood. O 3D é usado para tornar essa magia palpável, justificando seu uso em prol da fantasia, não apenas para inflacionar o preço do ingresso. Ao contrário dos EUA no primeiro longa, contudo, a França é mero cenário, sem muita preocupação na apresentação das particularidades mágico-culturais do país. Elementos promissores apresentados nos trailers como o circo não chegam a sequer formar um momento dentro da trama, perdendo a oportunidade de tornarem-se memoráveis.

Da primeira à última cena, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald é feito para fãs. Não há espaço para o espectador de ocasião, pois não se trata de um filme com início, meio e fim. Ainda que algumas explicações sobre o que aconteceu antes sejam incluídas, não existe uma jornada clara a ser seguida, o que dificulta a entrada de qualquer um que não tenha embarcado há muito tempo nesse universo. Quem já acompanha, fica curioso com o que virá a seguir, mas também frustrado ao ter a expectativa criada pelo primeiro filme apenas direcionada pela sequência.

Fosse a nova franquia do mundo bruxo um livro, esse seria o capítulo que serve de preparação para o próximo, fornecendo apenas alguns ingredientes necessários para o conflito que move a narrativa. Adaptado ao cinema, esse trecho seria resumido em alguns minutos, ainda no primeiro ato. Pela forma como J.K. Rowling arquiteta sua "pentalogia" cinematográfica, entretanto, é preciso esperar até 2020 (quando o próximo filme chega aos cinemas) não para que a história continue, para que finalmente comece.

Nota do Crítico
Bom