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Amor por Contrato | Crítica

Hollywood comete mais um de seus surtos moralistas contra a frieza da modernidade

Marcelo Hessel
23.12.2010
18h00
Atualizada em
21.09.2014
14h13
Atualizada em 21.09.2014 às 14h13

Hollywood de vez em quando parece se incomodar com sua vocação para o escapismo. Esse mal estar acumulado então gera filmes morais que se maquiam de gêneros populares, como a comédia romântica, para denunciar a suposta frieza e a insensibilidade da vida moderna.

A mercantilização do estilo de vida é o alvo de Amor por Contrato (The Joneses), um O Show de Truman sobre os males dessa coisa nefasta que é a publicidade. David Duchovny e Demi Moore fazem o casal Jones, Ben Hollingsworth e Amber Heard são seus "filhos", todos eles funcionários de uma empresa de self marketing. Eles são pagos para se instalar num bairro abonado e exibir objetos de desejo aos vizinhos - que nem desconfiam que essa família perfeita que acaba de se mudar é, na verdade, uma vitrine viva.

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A estreia na direção do roteirista e produtor Derrick Borte tem uma premissa interessante, mas ela se esvazia a cada instante de filme, mais exatamente quando vai ficando claro que Amor por Contrato não tem o menor interesse em discutir os efeitos da publicidade em si, e sim em repetir os sermões e as situações de sempre, como a do casal que não deveria se apaixonar mas confunde vida profissional com pessoal.

O mundo hoje é feito de trendsetters, sejam eles pagos ou não, e observar a reação das pessoas afetadas por eles é o que tiraria um filme como Amor por Contrato do lugar-comum. O filme trata os consumidores como tratariam os publicitários de Mad Men: como uma massa amorfa, que repete padrões de comportamento sem pensar. Não é assim hoje em dia; uma fashion victim pode virar trendsetter de uma hora pra outra, e é esse aspecto da modernidade que o filme, com sua cabeça de velho moralista, não pegou ainda.

O único coadjuvante que Amor por Contrato acompanha com algum interesse, para diagnosticar as consequências da propaganda no público, é um tipo que não existe mais depois da crise de crédito de 2008, o cara que se afoga em parcelas e pode perder a própria casa. O filme de Borte, então, não só é sensacionalista - o desfecho dado a esse personagem é um acinte - como anacrônico.

Isso sem contar o desinteresse com que são tratados os protagonistas (o drama do filho mais velho é revelado em uma cena cortada abruptamente, como se fosse esse um drama pesado demais para um filme que se prometia tão leve) e o desleixo da direção (a cena final não tem o menor clima, emoção, nada).

Enfim... Amor por Contrato é o tipo de filme que aquele professor charlatão de teoria da comunicação passaria a primeiro-anistas de uma faculdade de publicidade sem processo seletivo. Quem deve estar feliz, ao final, são os anunciantes, afinal Hollywood, apesar da discurseira ocasional, não deixa de ser um paraíso para o product placement.

Amor por Contrato | Cinemas e horários

Nota do Crítico
Ruim