Altos Negócios

Créditos da imagem: Divulgação/Netflix

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Crítica

Altos Negócios

Produção alemã da Netflix aproveita elenco carismático para criar versão leve do Lobo de Wall Street

Gabriel Avila
28.04.2020
16h08
Atualizada em
28.04.2020
17h31
Atualizada em 28.04.2020 às 17h31

Casa de algumas das mais celebradas obras do gênero policial lançados nos últimos anos, a Netflix não enxerga fronteiras quando o assunto é crime. Desde Narcos até La Casa de Papel, passando por O Irlandês, o serviço de streaming reserva um espaço especial em seu catálogo para esse tipo de história. Uma das mais recentes adições da plataforma foi Altos Negócios, filme alemão que segue, sem muita inspiração, a cartilha deixada por clássicos, mas que se torna cativante graças ao seu elenco inspirado.

Altos Negócios conta a história de Viktor Stein (David Kross), um garoto que deixa a casa de seu pai e parte para a cidade grande para se tornar um empresário de sucesso. Não demora muito para que o rapaz descubra que precisa quebrar algumas regras para se infiltrar em um ramo disputado como o imobiliário. Após uma parceria inesperada com o malandro Gerry Falkland (Frederick Lau) e a bancária Nicole Kleber (Janina Uhse), Stein entra em uma jornada repleta de glamour, álcool e drogas que não demora para fugir ao seu controle.

Ainda que várias das histórias de grandes criminosos do cinema tenham uma premissa parecida, é da fonte de O Lobo de Wall Street que Altos Negócios mais bebe. A jornada inspirada na vida real de Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) narrada pelo filme de Martin Scorsese dita algumas das batidas da produção alemã que, pela falta de coragem, acaba se tornando uma versão mais leve do mesmo. O roteiro de Cüneyt Kaya, que também assina a direção do filme, custa a corromper Viktor, deixando-o sempre com uma aura de bandido de bom coração. Mesmo as situações que melhor ilustram o mau-caratismo do rapaz guardam espaço para arrependimentos e deixam um caminho fácil para que ele encontre redenção.

Essa timidez pode ser vista também no decorrer da história, com destaque para as farras. Ao invés de ilustrações grandiosas sobre o poder adquirido pelos personagens, elas se tornam eventos protocolares, como que colocados no enredo apenas porque, em teoria, pessoas de grande sucesso precisam se entupir de drogas. Nesse sentido a história abraça várias características convencionais do gênero quase por obrigação. Tais eventos fazem com que a história não se torne memorável por sua criatividade, falta de inspiração essa que contamina também a montagem. O primeiro ato do filme é cheio de cenas entrecortadas e flashbacks deslocados, que se disfarçam de estilo, mas são na verdade uma grande bagunça que só não compromete o ritmo da produção pois é atenuada conforme a história avança.

É justamente quando decide ousar que Altos Negócios prova seu valor e ultrapassa a barreira da mediocridade. O filme aposta alto ao abrir mão do mistério a respeito do destino de seus personagens, revelando logo de cara não apenas o que acontece com Viktor, como também revelando alguns dos desdobramentos de sua história. Sacrificando o suspense causado pela incerteza se os golpes darão certo ou não, o longa direciona o olhar do espectador a saborear as vitórias de seu protagonista sabendo que seu destino já está traçado e que o relógio corre contra ele. Essa abordagem, que está longe de ser inédita, abre a possibilidade para alguns dos momentos mais divertidos do filme, já que a tensão é substituída por uma comédia que aproveita do carisma de seus protagonistas para funcionar.

A seu favor, o filme tem atores de peso que usam o clichê como espaço para dar vida própria a seus personagens. Duplas como Viktor e Gerry, formada por um líder esperto e um aliado sem noção, dependem muito da entrega de seus intérpretes, e aqui funcionam tão bem, que é fácil se sentir parte do grupo mesmo quando as coisas começam a desmoronar. O mesmo ocorre com Nicole, que surge não apenas como o interesse romântico do protagonista, mas alguém com voz própria que vez outra faz comentários metalinguísticos sobre como filmes do gênero retratam as mulheres de forma simplória.

Deixando de lado o que seria uma bem-vinda dose de loucura, Altos Negócios é perfeito para agradar aqueles que preferem uma espécie de caos controlável. Pecando pela falta de ousadia, a produção empolga e faz rir, mas sempre deixa uma sensação de que falta algo. Pode não ser um novo capítulo para os criminosos charmosos no cinema, mas é certamente um divertido passeio pelo submundo dos golpes imobiliários na Alemanha.

Nota do Crítico
Bom