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Crítica

All of a Sudden é a obra-prima para a qual Ryusuke Hamaguchi vinha caminhando

Contruindo em cima de temas que explorou em seus últimos filmes, o diretor de Drive My Car entrega um filmaço

Omelete
5 min de leitura
15.05.2026, às 19H31.
All of a Sudden

Créditos da imagem: NEON

O que Ryusuke Hamaguchi tem explorado em seu cinema nesta década? Olhando sua tríade de obras-primas nos anos 2020 – A Roda do Destino (2021), Drive My Car (2021) e O Mal Não Existe (2024) – fica claro que o cineasta japonês está interessado em comunicação, humanismo e arte, entre outras coisas. Sendo este o caso, não é injusto chamar seu novo filme, All of a Sudden, do projeto para o qual ele vinha construindo. Repleto de ecos de seus últimos trabalhos mas inteiramente único em sua carga emocional, o novo longa do diretor (e com mais de três horas de duração, coloque longa nisso) confirma novamente o status de Hamaguchi como um dos melhores da atualidade.

A colisão de suas ideias, ansiedades e sonhos vem no encontro entre duas mulheres cujas semelhanças começam no nome. Marie-Lou Fontaine (Virginie Efira) é a diretora de uma casa para idosos com debilidades cognitivas que adota uma linha de tratamentos chamada "Humanitude”; trata-se de uma abordagem mais carinhosa e cautelosa, mas uma cuja aplicação gera problemas financeiros e de equipe. Já Mari Morisaki (Tao Okamoto) é uma dramaturga japonesa que luta contra um câncer avançado enquanto sua nova peça – um dramatização da vida de Franco Basaglia, um psiquiatra italiano que lutou contra a existência dos manicômios em seu país – desfruta de uma elogiada temporada em Paris. É lá que ela, por acidente, cruza o caminho de Marie-Lou, e a convida para o teatro. Quando a cuidadora assiste ao espetáculo, uma conexão profunda é instantaneamente formada entre as duas, a começar pela linguagem.

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Marie-Lou estudou no Japão, e Mari estudou na França. As duas são capazes, então, de conversar tanto em japonês quanto em francês, e assim como fez em Drive My Car, Hamaguchi mina ao máximo o potencial dramático da comunicação através de idiomas distintos. Em uma sessão de perguntas e respostas após a peça de Mari, o ator principal da obra – Kyōzō Nagatsuka como Goro Kiyomia – explica que a razão pela qual todas as suas falas são em japonês (uma tela atrás do palco exibe legendas em francês) é porque, por mais que ele seja fluente, usar a própria língua oferece um grau mais amplo de expressividade. Talvez seja por isso que, ao tomar o microfone, Marie-Lou converse com Mari em japonês. Ela quer conhecer a verdadeira pessoa.

O que se segue é uma noite inesquecível para ambas mulheres e para o público. Um passeio pelas ruas parisienses leva às duas de volta à casa de repouso de Marie-Lou, e lá as duas compartilham suas visões sobre os diversos males que afligem a humanidade. Cansaço, falta de tempo, dinheiro, enfim. Primeiro em japonês, depois em francês e enfim com cada uma respondendo a outra com sua língua-mãe, a conversa aborda dificuldades pessoais, políticas e profissionais de cada uma. No processo, Hamaguchi pauta o que poderia ser uma verdadeira avalanche de diálogos expositivos numa visão tão humanista, e tão cuidadosa, que All of a Sudden evita quase por completo a sensação de virar algo pedante. 

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Digo quase, porque há um ou outro momento em que uma personagem literalmente puxa um quadro ou folha em branco para passar uns bons minutos explicando conceitos como capitalismo e democracia (mais até do que O Mal Não Existe, esta é a grande tese política do cineasta). Mas se All of a Sudden é o filme mais acadêmico de Hamaguchi, ele é também seu mais emocionante. Enquanto as duas mulheres se abrem e se conectam, Efira e Okamoto – ambas entregando atuações de uma vida – executam com proeza o milagre de transbordar emoções fortes sem cair num melodrama barato. Não só compramos a amizade das duas, como acreditamos 100% quando elas dizem sentir que suas vidas estavam preparando-as para aquele momento.

Eventualmente, a noite termina e um novo dia começa. Desafios de saúde, conflitos com colegas e ansiedades econômicas surgem, mas as duas forjam um laço cada vez maior. Marie-Lou e Mari decidem trabalhar juntas, e no processo reúnem seus respectivos mundos. De um lado, há enfermeiros cada vez mais investidos no cuidado de seus pacientes. Do outro, há artistas como Goro e seu neto Tamaki (Kodai Kurosaki), um menino que apesar do alto grau de autismo tem um claro interesse na peça protagonizada pelo avô. Talvez isso seja o melhor exemplo da ideia que serve como estopim para o começo da amizade entre as protagonistas: a certeza de que mesmo uma pessoa cuja mente foi afetada por uma forte doença ainda retém seu raciocínio. Fragmentado? Talvez, mas sempre cheio de alma.

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Se este é o caso, elas – por mais avançada sua idade e mais reduzida sua fala – ainda são capazes de se comunicar. Resta saber se estamos dispostos a ouví-los. Novamente tratando de como criamos conexões, o cineasta une coisas que ele vem encenando há algum tempo. Em A Roda do Destino, Hamaguchi explorou os efeitos das histórias que contamos sobre nós mesmos, sejam elas verdadeiras ou não. Em Drive My Car, ele explorou como a comunicação pela arte é capaz de curar, ou ao menos de nos ajudar a encarar a dor. Então, em O Mal Não Existe, ele sugeriu que a banalidade de ações corriqueiras pode trazer consequências dolorosas o suficiente para nos deixar sem palavras. Aqui, num filme que encontra esperança para uma humanidade melhor através da conexão humana forjada pela comunicação, a maior expressão de nossa identidade. É como se tudo que ele aprendeu nos seus dois primeiros longas desta década fosse, agora, usado como resposta a seu trabalho mais recente.

Pode parecer uma ideia piegas, mas esta é, também, uma conclusão que Hamaguchi vem preparando há anos. E, francamente, é algo caloroso de se assistir. É verdade que All of a Sudden pode ser um pouco gentil demais às vezes. Seus conflitos jamais se tornam urgentes e até mesmo seus piores acontecimentos são temperados com atos de graça, mas a eficácia com a qual o diretor e suas estrelas constroem este drama, irresistível num nível pessoal com a jornada das duas e num nível temático com as bandeiras que elas defendem, nos convence de sua necessidade. Este pode não ser o título mais intelectualmente complexo ou dramaticamente sutil do cineasta, mas na sua esperança inabalável, ele entrega algo igualmente poderoso: um filme que nos faz acreditar, genuinamente, na possibilidade de um futuro melhor.

Crítica escrita em 15 de maio no Festival de Cannes 2026. All of a Sudden ainda não tem previsão de estreia no Brasil.

Nota do Crítico

All of a Sudden

Sudain

2026
196 min
País: França, Japão
Direção: Ryûsuke Hamaguchi
Roteiro: Ryûsuke Hamaguchi
Elenco: Virginie Efira, Tao Okamoto
Onde assistir:
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