Alita: Anjo de Combate

Créditos da imagem: Alita: Anjo de Combate/20th Century Fox/Reprodução

Filmes

Crítica

Alita: Anjo de Combate

Longa acerta em cheio nas lutas épicas do mangá, mas ainda não é a redenção de Hollywood com o gênero

Mariana Canhisares
14.02.2019
11h03
Atualizada em
18.02.2019
11h46
Atualizada em 18.02.2019 às 11h46

Depois de tantas adaptações fracas de mangás e animes, Alita: Anjo de Combate é quase um respiro. Homenageando a obra de Yukito Kishiro, o diretor Robert Rodriguez reproduz nas telas páginas inteiras do material original e acerta em cheio nas cenas de luta. No entanto, talvez essa ainda não seja a redenção de Hollywood com o gênero. Ao desenvolver praticamente todas as subtramas do mangá, nem mesmo o visual impecável do filme disfarça o cansaço de uma história tão episódica.

Com a proposta de ser o primeiro capítulo de uma eventual franquia, o longa estabelece bases sólidas para sua protagonista. Em um cenário hostil, com guerreiros caçadores e ladrões de peças em cada beco da Cidade de Sucata, Alita é apresentada em um lixão, descartada entre tantas peças enferrujadas. Pelas mãos de Ido, um médico bondoso que a adota, ela volta à vida sem memória do que a levou até ali. Ao longo de duas horas, a produção mescla os arcos do mangá e do anime, acompanhando o amadurecimento da ciborgue e a redescoberta do motivo da sua existência.

A inocência e a bravura de Alita não demoram a conquistar o espectador. Neste processo de autoconhecimento, a atriz Rosa Salazar capturou muito bem o espírito da personagem. Mais do que apenas uma representação da força feminina, ela é carismática, fofa e aberta para o mundo ao seu redor. É verdade que há momentos mais melodramáticos, sobretudo no quesito romance adolescente, que fazem virar o olho tanto quanto na obra original. Porém, fato é que isso se deve pela urgência exagerada do roteiro de Rodriguez, James Cameron e Laeta Kalogridis, não pela atriz ou pela direção das cenas. No fundo, é a performance Salazar que recupera em alguma medida o fôlego da narrativa e o interesse do público.

Se ela não tivesse essa compreensão de Alita, a trama não teria tanta aceitação. Não propriamente pela trajetória da protagonista, que segue uma estrutura bastante clássica, mas porque o longa usa personagens demais como trampolim para construir essa evolução. Ainda que tenha condensado trechos do mangá de forma bem resolvida, Alita: Anjo de Combate é incapaz de desenvolver mais do que dois nomes do núcleo principal, desperdiçando o talento de boa parte do seu elenco em arcos às vezes pouco relevantes dentro da jornada principal.

A personagem de Jennifer Connelly é um exemplo claro disso. A médica Chiren não tem qualquer função na história até o último segundo, quando sua presença é justificada em um momento de instinto materno forçado, destoante de tudo o que foi mostrado dela até então. O vilão de Mahershala Ali também cai em uma questão semelhante. Embora esteja idêntico ao Vector do mangá, ele não tem a mesma presença da obra original. Aumentaram seu espaço no filme, mas tiraram todo o peso dele na narrativa ao usá-lo de pretexto para a revelação final.

O ator Keean Johnson, por outro lado, teve todas as chances de entregar uma boa atuação e não convenceu como o bad boy Hugo. Na realidade, ele acaba personificando o que há de mais chato na produção. Perdendo tempo para trabalhar um romance adolescente até um pouco estereotipado, Alita: Anjo de Combate coloca em segundo plano o que de fato é muito bom: as cenas de ação. Os golpes épicos e as acrobacias ficam verossímeis dentro da narrativa e, junto com o belo trabalho no visual do filme, criam uma experiência imersiva empolgante no cinema.

A intenção de continuar a história de Alita e construir uma franquia é óbvia. Porém, mantendo alguns desses moldes, talvez poucos queiram acompanhar um segundo capítulo.

 

Nota do Crítico
Bom