Filmes

Crítica

Alice Através do Espelho

Seis anos depois, continuação só deve agradar aos fãs do primeiro filme

Natália Bridi
24.05.2016
13h25
Atualizada em
19.08.2019
11h49
Atualizada em 19.08.2019 às 11h49

Em um tempestuoso cenário, entre ondas gigantes e movimentos de câmera pensados para exaltar as qualidades dos 3D, Alice Através do Espelho começa a sua trama e lança a pergunta: “essa continuação é mesmo necessária?”. A sequência da adaptação de Tim Burton para o clássico de Lewis Carroll almeja retomar, 6 anos depois, a fórmula que acumulou mais de US$ 1 bilhão nas bilheterias. E nenhum minuto, das quase 2 horas de filme, é capaz de ir além desse argumento para justificar a sua existência.

Alice (Mia Wasikowska) está no mesmo lugar em que foi deixada. Desbravadora dos Sete Mares, ela comanda seu navio com mantras adquiridos da no País das Maravilhas. Vive para “tornar o impossível possível” até que problemas mundanos surgem para atrapalhar. Uma realidade infeliz que ela logo troca por uma missão em terras mais coloridas. É quando o longa tem em mãos a oportunidade de criar um “impacto technicolor”, como o da chegada de Dorothy em Oz. O que se vê pelas lentes do diretor James Bobin (de Os Muppets), contudo, é a repetição do mesmo CGI pálido, que parece padronizar a paleta de cores por um filtro de Instagram. Ironicamente, a vida real de Alice, pontuada por intrigas familiares e médicos loucos, é mais interessante do que o seu universo fantástico.

Camadas e camadas de computação gráfica são renderizadas em mundo sem profundidade de campo (ou relevância artística). Simulações que não encantam. Um resultado que vai contra a tradição criativa das adaptações da obra de Carroll dentro da Disney. Dos filmetes que misturavam animação e live action estrelados por Virginia Davis na década de 1920 à animação lisérgica de 1951 - um fracasso nas bilheterias à época do seu lançamento que foi redescoberto por sua psicodelia quase dez anos depois. Ousadias que não chegaram perto da versão dirigida por Burton e certamente não tem espaço na continuação que o cineasta apenas assina como produtor. 

Se existem lampejos de qualidade é por conta de parte do elenco. Wasikowska é obrigada a dizer frases lamentáveis - “Como viverei sem o impossível?” -, mas não abandona a sua personagem, o que dá o mínimo de credibilidade para os mundos que a cercam. Comprometidos com seus papéis e cheios de atitude, Helena Bonham Carter, que retorna como Rainha de Copas, e Sacha Baron Cohen, que estreia como o Tempo, são os únicos capazes de entreter no longo caminho até a conclusão do filme, amenizando a incômoda insistência no Chapeleiro Maluco de Johnny Depp. Com direito a drama familiar, o personagem toma o centro da trama para tornar os outros habitantes dos País das Maravilhas a sua trupe de luxo, incluindo a Rainha Branca de Anne Hathaway e o derradeiro trabalho de Alan Rickman como a ex-Lagarta Azul.

Alice Através do Espelho pode até agradar aos fãs do primeiro filme e chegar a um moderado sucesso nas bilheterias (já que a estreia no mesmo dia de X-Men:Apocalipse nos EUA não deve deixar espaço para a repetição das cifras do longa original). Para o resto do público, porém, não passa de mais um sinônimo para desperdício cinematográfico.

Nota do Crítico
Regular