Filmes

Crítica

Álbum de Família | Crítica

Psicodrama rumo ao Oscar

Marcelo Hessel
26.12.2013
14h57
Atualizada em
29.06.2018
02h27
Atualizada em 29.06.2018 às 02h27

Romancistas e dramaturgos da geração baby boomer - aqueles que nasceram nos EUA durante a prosperidade do pós-Guerra, até os anos 1960 - encontram nos seus pais e avós, a chamada Grande Geração, um tema rico e recorrente, por uma questão de oposição. Enquanto a Grande Geração perdurou na Depressão e na Segunda Guerra porque "era a coisa certa a fazer", os boomers se abriram para a terapia, o divórcio e os prazeres da juventude - entre o "certo" e o "errado" agora havia todo um espectro de possibilidades.

album de familia

None

album de familia

None

Em Álbum de Família (August: Osage County), adaptação ao cinema da peça homônima, vencedora do Pulitzer e do Tony, o escritor Tracy Letts trata esse conflito das duas gerações como mais um capítulo da formação continental dos EUA. Violet Weston (Meryl Streep) representa os desbravadores do Oeste, assentados em planícies inóspitas como o Condado Osage em Oklahoma, inferno na Terra no mês de agosto, no auge do verão. Quando suas filhas baby boomers (vividas por Julia Roberts, Julianne Nicholson e Juliette Lewis) pegam a estrada e precisam se reunir com a mãe depois de uma tragédia na família Weston, Violet derruba sobre elas todo o rancor de quem carregou o mundo nas costas porque "era a coisa certa a fazer".

Essa ideia da conquista do território enquanto conquista de uma identidade se mantém ao longo do filme (sempre presente na personagem da empregada indígena, sem a qual nenhum dos demais teria o que comer ao longo de Álbum de Família) e segue até o desfecho, quando outra personagem aceita sua "herança" e pega a estrada para o Oeste. Em nenhum momento, porém, Letts deixa de desconfiar dessa autoproclamada vocação para o progresso. Em outras peças suas já levadas para o cinema, como Possuídos e Killer Joe, fica evidente que o dramaturgo prefere ver a suposta unidade americana como farsa ou como tragicomédia.

Então a escolha que o diretor John Wells tem a fazer em Álbum de Família é abraçar o farsesco de vez ou negá-lo, em nome de um drama "sério". O filme termina indeciso entre uma coisa e outra, entre situações e personagens pensados por seu potencial tragicômico (a briga que estampa o pôster, por exemplo) e interpretações carregadas de gravidade e encenadas com a solenidade que se espera não só de um drama "sério" mas também de um drama "de prestígio".

Wells basicamente enxerga nos diálogos bagaceiros de Letts uma oportunidade de fazer uma DR familiar na linha Tennessee Williams, como Gata em Teto de Zinco Quente, altamente oscarizável nas suas explosões de fúria e fragilidade. Sem dúvida há muito o que notar, nesta temporada de prêmios, nas atuações de Julia Roberts, Margo Martindale e especialmente de Meryl Streep (que pode ganhar o Oscar de Melhor Al Pacino por Álbum de Família), mas os monólogos de confidências dessas personagens nunca deixam de ser performances para se tornar interpretações de fato.

Mattie Fae, a personagem de Margo, já dá toda a letra logo no começo do filme, quando seu marido diz que o filho dos dois não é uma anta, e sim um jovem "complicado". "Você precisa ser inteligente para ser complicado", responde Mattie Fae. Pois é isso que os personagens de Álbum de Família demonstram ser: não necessariamente pessoas complicadas mas antes pessoas inteligentes, plenamente cientes de seus males e dos males dos outros, e prontas a discuti-los sem um senso de dúvida ou pudor. John Wells talvez não perceba, mas acaba levando ao extremo a disposição dos baby boomers para o psicodrama: os Westons são antes atores numa representação do que uma família de fato.

Álbum de Família | Cinemas e horários

Nota do Crítico
Regular