Alabama: Presos do Sistema | Documentário da HBO expõe prisões dos EUA
Filme indicado ao Oscar conta com imagens brutais registradas pelos próprios detentos
Tão importante quanto a história narrada em Alabama: Presos do Sistema é a de como o filme, indicado ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Documentário, foi feito. Dirigido por Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman, o longa produzido pela HBO coloca em tela os abusos de poder cometidos dentro das prisões do estado do Alabama (EUA), onde a falta de transparência permite que guardas punam presidiários como bem entenderem, uma liberdade que frequentemente tem consequências letais sem praticamente nenhuma repercussão.
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São relatos absurdos, assustadores e – no maior feito do documentário – registrados em primeiríssima mão. Como diz um dos personagens, Alabama: Presos do Sistema sem que as regras (e a lei) fossem quebradas. As mais impactantes imagens do filme, afinal de contas, são registradas pelos próprios homens encarcerados nesse sistema de violência e burocracia, através de celulares colocados ilegalmente para o outro lado das grades – muitas vezes pelos próprios guardas, interessados numa graninha extra – para quebrar a parede, literal e figurativa, erguida pelas autoridades estaduais para separar tudo que acontece ali dentro do restante do mundo.
As gravações destes aparelhos, assim como as ligações em vídeo entre a equipe do documentário e os presos que topam conversar com eles, são muitas vezes as únicas formas de encontrar a verdade por trás de acontecimentos horrendos, como a morte de Steven Davis, um homem que todos, exceto o guarda responsável por esmagar seu crânio, dizem ter se rendido num momento de conflito. Boa parte do filme é dedicada ao acompanhamento deste caso, e aos esforços do advogado contratado pela família do morto para processar o Alabama e conseguir algum vislumbre de justiça. Ver as testemunhas se abrindo pouco a pouco para falar do que viram só não é mais arrepiante do que o relato de outro presidiário, o colega de sala do rapaz em questão.
Este homem, James Sales, adota a história do guarda, e está a apenas alguns meses de deixar aquela prisão. Na ligação com o advogado, ele insiste que não mentirá para a mãe do colega e que entende o luto dela, mas naquele momento, ele não pode se envolver mais. É algo que o advogado compreende – e nós também. Afinal de contas, Presos do Sistema deixa palpável a atmosfera de pesadelo por trás daqueles muros, e é impossível julgar uma pessoa, ainda mais alguém cujo crime não foi violento, de querer proteger sua saída deste inferno. Trata-se, porém, de uma tentativa vã de autopreservação. Sales termina morto semanas antes do fim de sua pena.
O desenrolar deste caso é revoltante, mas dentro do filme, acontece de maneira mais protocolar. Na verdade, isso é verdade com quase tudo que Alabama: Presos do Sistema aborda fora dos presídios. Uma pequena fatia do filme coloca em tela entrevistas com ex-guardas, dispostos a admitir os abusos de força cometidos ali dentro. No entanto, essa tentativa de incluir os oficiais como partes do tal “sistema” sai pela culatra, não tanto porque eles miram num argumento de vitimização, mas porque o filme demonstra pouco interesse em investigar esse lado da equação. Os guardas, então, parecem estar ali mais porque o filme sente alguma obrigação de mostrá-los, do que por alguma curiosidade genuína da parte dos documentaristas.
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Melhor é a conversa direta com os encarcerados; em especial, Robert Earl e Melvin Ray. Dois veteranos do programa Halifax County, onde presos ensinam outros presos sobre o sistema legislativo dos EUA e como defender seus direitos, Earl e Ray são, efetivamente, os protagonistas dos filmes. Eles têm um papel-chave na greve organizada pelos detentos para chamar a atenção do país, e são quem melhor consegue dissertar sobre aquilo que defendem e buscam. Nenhum dos dois passa pano para o que eles, e seus colegas de prisão, fizeram. Eles admitem a culpa, mas não aceitam os exageros. A punição, afinal de contas, não é o próprio confinamento?
As conversas com eles também são recheadas de tensão, e não é incomum ver alguma entrevista interrompida porque alguém escuta um guarda chegando, ou precisa garantir que a barra está limpa. São situações que conferem urgência aos testemunhos, e reforçam a importância do risco tomado por esses homens. Para eles, a tão desejada liberdade nem é mais a prioridade. Esses homens enxergam o filme como uma linha de socorro para, antes de mais nada, uma questão de vida ou morte. Quaisquer sejam as limitações de Alabama: Presos do Sistema, é impossível não reconhecer o papel crucial que o documentário exerce.