Foto de Ad Astra

Créditos da imagem: Ad Astra/Disney/Divulgação

Filmes

Crítica

Ad Astra - Rumo às Estrelas

Fora da sua zona de conforto, Brad Pitt embarca em jornada emocional no espaço

Marcelo Hessel
24.09.2019
14h26

Os filmes mais importantes de James Gray são aqueles passados no Brooklyn de Nova York porque essa ambientação, onde ele cresceu, entre mafiosos e matronas de ascendência russa na autocentrada cultura judaica local, é o microcosmo perfeito do tipo de história que o roteirista e diretor gosta de contar. Nelas, a família é o núcleo de tudo, tanto dos negócios quanto dos afetos, e na família os heróis trágicos de Gray encontram seu porto seguro e sua maldição.

Embora se passe fora da Terra, Ad Astra - Rumo às Estrelas não é muito diferente de Amantes ou Os Donos da Noite, no sentido em que trata da tentação do desbravamento como uma forma de negar a clausura da família. São todas histórias de coming-of-age em certo sentido, de fim da inocência, e o protagonista de Ad Astra não seria outro senão o filho de alguém. Brad Pitt faz o filho de Tommy Lee Jones, ambos astronautas, numa mistura de 2001: Uma Odisseia no Espaço com Apocalypse Now, sobre desertores e o vazio eterno.

Ao mesmo tempo em que este triste e minimalista suspense espacial adere à fixação narrativa pessoal de Gray (não falta nem o resignado monólogo final), Ad Astra oferece desafios bem distintos. O principal deles é uma exigência da ficção científica: as naves e bases espaciais do filme não permitem o tipo de decoração a que Gray está habituado, salas cheias de porta-retratos, prédios com tijolos aparentes encardidos, lojas de família com velharias empilhadas. A História sufoca os heróis de Gray porque ela está por todos os cantos, inscrita como lembrança nos sedimentos. É esse peso que, por fim, sacramenta o retorno ao lar, como uma bola de ferro. Em Ad Astra não há acúmulo do tempo possível em corredores de naves higienizados e em não-lugares como atracadouros em Marte.

O elemento no filme capaz então de transmitir esse acúmulo não é outro senão o corpo humano. O trabalho de Brad Pitt em Ad Astra se resume, em boa medida, a expor os sulcos de seu rosto em close-ups emoldurados em fundos monocromáticos. (Nessa equivalência, Tommy Lee Jones está perfeito no papel, porque tem as maiores olheiras de Hollywood.) As consequências no corpo, registradas tanto nos momentos de calmaria quanto nas cenas de ação, são o máximo a que o filme se permite em termos de jornada de individualismo, elemento que a ficção parece impor como traço essencial de qualquer viagem ao espaço sideral. Gray se nega a se refugiar nessa leitura, porque sua visão de mundo permanece coletivista: o homem segue religioso em Ad Astra, e seus astronautas rezam antes das decolagens.

Temos aqui então um filme que finalmente coloca à prova o talento de Pitt, ator que se habituou a interpretar figuras de carisma fácil, na base do charme. Cabe a ele trazer o espectador pela mão, naquele que é o filme de Gray mais difícil de “entrar”. Nem toda cena é bem resolvida e Pitt se ressente dessa responsabilidade. Funcionam melhor em Ad Astra os momentos em que o teste homem-versus-espaço se dá na coreografia de cena e câmera, e também na fotografia desafetada de Hoyte van Hoytema, como as travessias no escuro, no ar e na água. Se a jornada do protagonista é essencialmente interiorizada, cabe a esses momentos de provação oferecer o sedimento que se acumula, não ao redor, mas dentro de Pitt, cuja transformação física ao longo do filme é sutil mas não imperceptível. Ad Astra não poderia ser mais simples - atravessar o Sistema Solar é um castigo para o corpo e a mente - e ao mesmo tempo é um desafio contar no cinema uma história que é basicamente uma jornada muito complicada de caronismo.

Ainda que estejamos dentro de uma versão aumentada dos temas típicos de Gray - sair, experimentar o perigo, o perverso, retornar para contar - Ad Astra recusa a grandiloquência de 2001. O filme evita também o caminho fácil de Gravidade, o do cinema de simbolismos (o mais perto que Gray chega é colocar Pitt para “mamar” numa bolsa fixa de líquido como um bebê frágil), e seu despertar de consciência acontece sem arroubos de transcendência. Quando temos um registro mais sensorial e estetizado, como na cena da sala de relaxamento com os “descansos de tela”, ele vem como farsa.

O que o diretor mostrara antes, com suas tragédias inspiradas no operístico, é que seu cinema confia menos no texto de sacadinhas do que nas coisas que só se manifestam via dramaturgia. São filmes, em boa medida, bastante acessíveis naquilo que têm de sentimental. Neste caso, Ad Astra parece mais fechado em si, não por causa da frieza do espaço (a narração em off bem confessional e refletida é usada muito aqui para tentar impedir essa frieza) mas por causa de toda a sua proposta radical de simplicidade.

Aliás, como Gray preza pelo pequeno gesto e pelas pequenas relações, quanto mais seu filme se distancia do transcendental de 2001, mais se aproxima do emocional de Solaris. Inclusive talvez seja com o clássico de Andrei Tarkovski, com seus planos de fusão e suas imagens de camadas e camadas de história, acumuladas como água e limo no jardim, que Gray tenha mais afinidade.

Por mais que Ad Astra recuse os simbolismos e o misticismo de Kubrick, a figura do pai é indissociável da figura de Deus, e por fim a questão da religiosidade, que paira por todo o filme, acaba por tocar todos os seus pontos. 2001 se encerra com a licença poética do feto na bolsa, do universo como o espaço único de todo o milagre da vida, mas Ad Astra nunca perde de vista o mundano e portanto o milagre - se dá para chamar assim - está todo contido na intenção, no gesto de fé que é a exploração espacial.

Ad Astra se nega a atribuir à jornada ao desconhecido uma natureza sobrenatural, e o que acompanhamos, para fechar o ciclo do eterno retorno, é o esforço do homem para preservar o que ele entende, por experiência, como sendo natural, familiar. O salto no escuro pode ser um gesto de fé mas seu objetivo é confirmar convicções, afinal. No início isso, a familiaridade, é sublinhada de forma irônica no futurismo do filme - pessoas pagam 100 dólares por um travesseiro e, na Lua, comem nos fast foods que já conhecem - e o arco dramático de Ad Astra, desenrolado com paciência em duas horas, trata também de uma depuração, eliminar dessa equação seu caráter irônico.

Colocar esse filme em perspectiva diante dos trabalhos anteriores de James Gray talvez permita, então, que o final falsamente frustrante de Ad Astra seja visto sob outra ótica. Encarar a jornada e o retorno do filho não como uma emancipação fracassada, mas como a constatação empírica, franca, dos valores da História e da coletividade. Olhar para ver.

Nota do Crítico
Ótimo