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Crítica

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell | Crítica

Adaptação vai além da fidelidade e apresenta nova interpretação para o anime clássico

Thiago Romariz
30.03.2017
08h25
Atualizada em
30.03.2017
10h40
Atualizada em 30.03.2017 às 10h40

Em determinada cena, Major (Scarlett Johansson) precisa se afastar do barulho da cidade grande e decide mergulhar até o fundo do mar. "É o único lugar onde tenho paz", diz ela ao companheiro Batou (Pilou Asbaek). A cena de A Vigilante do Amanhã é uma representação precisa de uma das sequências mais introspectivas do anime Ghost in the Shell, de 1995.

A animação, criada a partir do mangá de Masamune Shirow, tem inúmeros momentos onde a protagonista, em silêncio, questiona a própria existência e tudo que está a sua volta. A corajosa adaptação de Rupert Sanders abraça o lado zen da obra original e o mistura com algum didatismo clássico do blockbuster hollywoodiano. Com isso, A Vigilante do Amanhã consegue manter a força da fonte ao mesmo tempo que inclui uma visão mais ocidental e menos subjetiva da trajetória de Major.

O roteiro se baseia na trama do primeiro anime para dar o ponta pé inicial. A Hanka, empresa que visa melhorar humanos a partir de peças robóticas, começa a fazer experiências para ter um modelo que tenha apenas um cérebro humano e seja 100% robô. Eis que nasce Major. Usada como uma arma pela equipe de segurança do Setor 9, uma das regiões mais violentas da megalópole na qual o filme se passa, a agente procura entender quem ela é naquele novo mundo. Se há um passado por trás daquele “fantasma” dentro de sua casca mecânica ou se ela é apenas uma máquina programada pelos cientistas da empresa.

O antagonismo da história vem de Kuze, vilão interpretado por Michael Pitt. O personagem é uma mistura de alguns inimigos vistos em outras adaptações de Ghost, mas aqui não encaixa com o senso de urgência e ameaça que um vilão merece. Com o passar do tempo, ele se torna apenas um peão no avanço da trajetória de Major. Talvez esse seja o grande defeito da adaptação: não possuir um senso de perigo constante, pois seus antagonistas não têm força ou espaço suficiente para tomar o protagonismo de Johansson. Isso serve não só para Kuze, mas qualquer outra pessoa que se oponha à personagem.

Enquanto isso, os dilemas da agente são os conceitos que o filme explora melhor. Não por explicar cada um deles, mas sim por apresentá-los e deixar que o espectador acompanhe os questionamentos de Major ao longo da história. A não ser pela explicação constante do que é o “fantasma” dentro do corpo robótico, A Vigilante do Amanhã não subestima a audiência, deixando alguns temas para interpretação após a exibição - assim como o anime de 1995. A procura pela identidade, a questão de gênero e o lugar de um ser como Major naquele mundo são discussões que o filme não responde, apenas apresenta.

E para contextualizar esse ambiente futurista há um design de produção impecável. O trabalho da Weta é digno de aplausos a cada cena. Um paraíso para fãs do anime e aficcionados por construção de universos. Dos efeitos visuais que montam uma cidade povoada por hologramas até os transeuntes cheios de braços e olhos mecanizados. Tudo parece ter sido tirado de um mundo onde Blade Runner, Mad Max e Matrix se encontraram. Há um delicioso estranhamento familiar no design de Vigilante do Amanhã. As cenas de (re)montagem de Major exemplificam bem isso, ao deixá-la indagar seu criadores enquanto carne e fios se misturam. Ansiedade e frieza juntas no momento da criação. Uma imagem forte que representa a personalidade de quem guia a história.

Scarlett Johansson ajuda nessa imersão ao sumir na pele sintética de Major. O olhar vazio e a agilidade nas cenas de ação contribuem para uma verossimilhança que não é simples de atingir. A performance é melhorada pela reviravolta que o roteiro faz para explicar os motivos de sua fisionomia, encerrando qualquer discussão sobre o whitewashing. Mais um acerto do roteiro, que apesar de não encaixar bem seus antagonistas e explicar demais um ou outro conceito, tem um saldo positivo raro em adaptações desse meio. Ghost in The Shell ganhou um filme digno de sua importância. Corajoso, fiel e diferente como deveria ser.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in The Shell
Ghost in The Shell
A Vigilante do Amanhã: Ghost in The Shell
Ghost in The Shell

País: EUA

Classificação: 14 anos

Duração: 106 min

Direção: Rupert Sanders

Roteiro: Jamie Moss

Elenco: Scarlett Johansson

Nota do Crítico
Ótimo

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