A Vida e as Mortes de Wilson Shedd | Amanda Seyfried impressiona em thriller sufocante
Seyfried e Scoot McNairy criam sintonia misteriosa digna do relacionamento tenso que se constrói entre os personagens do novo longa de Tim Blake Nelson
Créditos da imagem: Divulgação
A Vida e as Mortes de Wilson Shedd é um daqueles filmes que te envolve no início e te deixa curioso para ver até onde a história vai te levar, até que chegam os créditos finais e você sai sem ar da sala de cinema de tão sufocante que foi a narrativa.
Tim Blake Nelson, diretor e roteirista, não traz para os cinemas somente uma nova história de psicopata, mas cria uma experiência sensorial profunda ao longo do filme que nos conecta com os protagonistas. Ele explora os sentimentos humanos do medo, angústia, desespero, dúvida e sofrimento com maestria na tela, indo de olhares sutis a momentos extremamente viscerais.
Em A Vida e as Mortes de Wilson Shedd, Amanda Seyfried interpreta a protagonista Karen, uma professora aficionada por literatura, que aceita o emprego para dar aulas de escrita criativa em uma penitenciária de segurança máxima. Durante suas aulas, Karen tem a atenção roubada pelo detento e psicopata Wilson Shedd (Scoot McNairy), que aos poucos vai se aproximando da professora até fazer ela entrar em seu jogo de manipulação.
Atraída pela conexão criada com o criminoso e ansiando acabar com o seu casamento abusivo e violento com Kenneth (Grant Harvey), ela começa então a confiar que os dois podem se ajudar a fugir de suas realidades, levando a consequências que a faz desafiar não só a justiça mas até mesmo seu senso moral.
A trama é levemente inspirada na história real da fuga da prisão de Clinton Correctional Facility, localizada em Nova York, em 2015. Na ocasião, uma funcionária da penitenciária, Joyce Mitchell, se envolveu com os detentos Richard Matt e David Sweat, ambos condenados por assassinato, e forneceu ferramentas necessárias para cortar as paredes de aço de suas celas e acessarem os túneis de serviço, por onde escapariam usando as tubulações que levavam a um bueiro de rua do lado de fora do complexo.
Amanda Seyfried e Scoot McNairy criaram uma sintonia misteriosa em tela, vista em detalhes ao longo da trama, explorando a confiança e a vulnerabilidade entre os dois personagens nas sutilezas de uma roupa azul e um poema escrito em uma folha de caderno.
Seyfried se sai muito bem no papel da solitária e complexa professora, que desenvolve inconscientemente uma síndrome do salvador enquanto projeta fantasias de um homem sensível na figura de Wilson Shedd. Ela nos transporta para dentro das inseguranças e dores da personagem de forma que nos solidarizamos com Karen e ficamos angustiados com as decisões erradas que ela vai tomando ao longo da história.
Já McNairy é magnético, ele entra em cena e não tiramos os olhos dele. A construção do psicopata Shedd é uma fragmentação constante: de um lado vemos uma estranha sensibilidade, um brilho intelectual, e um charme cativante; do outro temos um homem frio, calculista, e com ausência total de culpa. Sua performance em cena cria os maiores momentos de tensão do filme, e é justamente essa dualidade da psique de seu personagem que faz o filme ficar sufocante com as atrocidades que vão escalonado ao longo de suas ações.
É válido destacar a família Lawson, composta por John (William Jackson Harper), Jane (Devyn A. Tyler) e seus dois filhos, que dentro da montagem brilhante do filme — dividida em três linhas temporais — tem um arco desenvolvido que culmina em uma das sequências mais assustadoras do longa, onde Jane tem que negociar a vida com Shedd. Tyler mostra todo o seu talento na atuação da mãe protetora ao longo da que divide com McNairy, sendo ela o grande destaque dentro do elenco coadjuvante.
A escolha de uma montagem paralela não linear para o filme, colocando três arcos diferentes em sequência, cria um ritmo muito interessante que faz toda a diferença para o resultado final do longa. Em uma das linhas temporais acompanhamos o presente, com Shedd ainda na penitenciária tendo aulas com Karen, em uma segunda linha acompanhamos a família Lawson e a fuga de Shedd; na terceira, vemos os encaminhamentos para o destino do assassino.
Todas as três linhas se encontram no final do desenvolvimento da história, que se ligam à conclusão do filme. Essa montagem deixa a trama mais dinâmica e instigante, criando expectativas para os próximos acontecimentos da história. No encerramento, esse entrelaçamento atinge seu ápice em uma cena fortíssima, que faz jus à tensão cultivada até aqui.
Após dez anos sem novos filmes como diretor, dá para afirmar que Tim Blake Nelson acertou em usar todo esse tempo para pensar e criar um filme que pode ser considerado um dos melhores, se não o melhor, de sua carreira na direção, e de quebra ainda teve uma participação atuando no filme como um dos agentes penitenciários.
A Vida e as Mortes de Wilson Shedd teve sua estreia mundial no Festival de Cinema de Toronto (TIFF) 2026 e também faz parte da programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme ainda não tem previsão de lançamento em circuito comercial.
A Vida e as Mortes de Wilson Shedd
The Life and Deaths of Wilson Shedd
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