Vastidão da Noite

Créditos da imagem: Amazon Prime Video/Divulgação

Filmes

Crítica

A Vastidão da Noite

Entre Altman e Spielberg, ficção científica independente é uma das surpresas do ano

Marcelo Hessel
08.06.2020
16h37
Atualizada em
10.06.2020
17h29
Atualizada em 10.06.2020 às 17h29

Embora seja um filme repleto de ideias e situações que evocam o passado, A Vastidão da Noite tem uma disposição para o futuro. Numa geração que presta reverência a Steven Spielberg por meio da nostalgia, de J.J. Abrams a Colin Trevorrow, esta estreia do Prime Video remete a Contatos Imediatos de Terceiro Grau; seu Spielberg de referência é similar ao de M. Night Shyamalan ou de Gareth Edwards, aquele atraído pelo terror e pelo maravilhamento do desconhecido. Em outras palavras, A Vastidão da Noite não é sobre conforto ou familiaridade, mas sobre escolhas e sobre risco.

A trama acompanha uma noite numa cidade do Novo México, no fim dos anos 1950 - época em que a ficção científica e as histórias com alienígenas se popularizam na TV e no cinema americano em meio aos primeiros anos da corrida espacial. Dois jovens, a telefonista Fay (Sierra McCormick) e o radialista Everett (Jake Horowitz), percebem uma interferência de rádio misteriosa que parece ruídos de OVNI, e eles partem para investigar, enquanto todo o resto da cidade prestigia no ginásio local uma partida colegial de basquete.

A produção de baixo orçamento, autofinanciada depois que o diretor Andrew Patterson fez uma carreira na publicidade em Oklahoma City (inclusive filmando o vencedor time da NBA da cidade, o Thunder), aproveita essa liberdade criativa para trilhar um caminho de viés autoral, com planos longos e alguns momentos de fade-out (em que a tela fica preta e só o áudio permanece). Estreante em longas, Patterson toma essas decisões com autoridade; a narrativa "difícil" se presta a envolver o espectador no mistério a partir de uma hipnose de luz baixa e discretos zoom-ins. O auxílio da trilha composta por Erick Alexander e Jared Bulmer - atmosférica, curiosa mas alarmante na medida - é providencial nesse sentido.

Um dos efeitos provocados pela música e pela direção de Patterson é essa sensação de que alguma coisa séria está prestes a acontecer. O primeiro ato do filme é fundamental para estabelecer esse clima, com a câmera perseguindo Everett pelo ginásio em planos-sequências que mostram a agitação pré-jogo na cidade. Os imprevistos, os improvisos, a excitação da grande noite - tudo nesses primeiros movimentos serve para colocar o espectador em um estado de alerta que será fundamental depois, no terceiro ato, feito de trocas discretas de exposição e de solilóquios anticlimáticos, quando Patterson se arrisca a perder o espectador nesse mergulho de introspecção.

O que fica logo evidente é que A Vastidão da Noite dá a maior importância para a urgência do presente. Exige a atenção do espectador, porque é assim que seus personagens se comportam (pelo menos seus dois protagonistas): sempre à espera de algo. Fay e Everett brincam sobre o futuro, sobre tecnologia. Discutem "nerdices", como os modelos de gravador a fita, porque para eles a tecnologia, inconscientemente, pode ser um canal potencial para permitir que essa coisa misteriosa, essa revelação que virá para transformar tudo, enfim chegue até eles. A relação que os personagens têm com a tecnologia (sempre funcional, o que a impede de ser uma relação fetichista, nostálgica) e a importância que o filme dá aos relatos orais, no rádio, no telefone ou ao vivo, lembram o maravilhamento da transmissão de A Guerra dos Mundos feita por Orson Welles em 1938: um relato de assombro, feito ironicamente a partir dos meios absolutamente familiares de comunicação que já dominamos.

É isso que faz de A Vastidão da Noite um scifi antinostalgia. Não é por acaso que a trama se ambienta num período de otimismo com a ciência, com a humanidade, e seu olhar voltado para o futuro abraça o desconhecido sem concessões, como em Contatos Imediatos. Através de Fay e Everett, entramos nesse relato épico sempre tendo como referência questões mundanas muito humanas: ela provavelmente o persegue porque gosta dele, e Everett se revela aos poucos não um sujeito blasé e sim um tipo incapaz de lidar com o interesse recíproco. Os diálogos expositivos entre os dois são cirúrgicos para ilustrar a aproximação, que acontece no modelo clássico dos opostos que se atraem: ela diz que não mente, coloca-se com inocência, e ele aos poucos desarma seu cinismo diante da entrega de Fay.

Ao mesmo tempo então que Patterson realiza um filme B de ETs, é a história de formação juvenil e esse boy meets girl esperto que funcionam como fios condutores da narrativa. O diretor parte da jornada íntima do "casal" sem nunca perder de foco o caráter épico que ela tem potencial para carregar. Como o filme alcança o épico? Primeiro, Patterson equipara os relatos orais, a nossa maior tradição narrativa: o causo do animal que mastigou os cabos de energia da cidade, repetido umas três vezes ao longo do filme, tem obviamente um caráter anedótico, mas é através dessas histórias que nos conhecemos e nos comunicamos, e afinal ela pode ter, por anedótica que seja, para nos definir social e culturalmente, o mesmo peso de um relato sinistro de uma mãe que perdeu o filho para alienígenas numa inexplicada abdução. A Vastidão da Noite vai do trivial ao épico a partir do que o trivial e o épico podem ter em comum: a fabulação.

E então voltamos ao trabalho de câmera, que em sintonia com as escolhas de iluminação e cenografia permite que o trivial se transforme em algo maior, mais significativo e talvez definitivo. As escolhas pelos planos longos, sejam estáticos ou planos-sequências, evidenciam mais as atuações, e elas se engrandecem com a iluminação que envolve os atores em focos de luz e então os diferencia das sombras da noite. É como se cada ator, no momento de sua fala, tivesse sobre si um holofote que valoriza e eterniza o momento. Patterson parece ter aprendido o melhor das lições que Paul Thomas Anderson herdou dos filmes de Robert Altman: o épico está nos instantes, e o movimento constante nervoso da câmera existe para nunca descuidar de buscá-los.

A Vastidão da Noite tem cara de Altman quando não está sendo Spielberg e é muito competente tanto nas movimentações, que fornecem contexto e ritmo, quanto nas pausas. É como se Fay e Everett fossem tão magnéticos enquanto protagonistas que o próprio frenesi da noite do jogo desacelera e se condiciona aos pequenos gestos dos dois. Que a maioria dos personagens adultos apareça na penumbra (a coxia do ginásio, os carros no estacionamento) ou em movimento de saída do quadro, dá a dimensão do "privilégio" que Everett e Fay estão experimentando. Envolvidos em luz intermitente, eles pulsam num tempo próprio, com campos magnéticos próprios, por assim dizer. Que a trama scifi trate de ondas e frequências torna toda essa apresentação mais irresistível. A aura que envolve os personagens - no fim, uma luz que definirá seus destinos - redime qualquer mal que haveria no mundo, pela própria natureza cândida e reveladora da luz.

Nota do Crítico
Ótimo