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Crítica

A Torre Negra | Crítica

Idris Elba se destaca de forma positiva, mas o filme se perde em sua própria identidade

Guilherme Jacobs
24.08.2017
15h41
Atualizada em
29.06.2018
02h46
Atualizada em 29.06.2018 às 02h46

A Torre Negra é uma série de livros profundamente estranha. O épico de Stephen King ilustra um multiverso que engloba infinitas realidades e conecta diversos livros do autor, como Dança da Morte e A Hora do Vampiro. O resultado são mais de 4.000 páginas com magia, fantasia, robôs e muito faoreste. É algo único, que só funciona por conta do talento de King, e representa um desafio gigante para qualquer pessoa que tente adaptar o mundo de Roland de Eld para as telas, seja do cinema ou da TV.

Depois de anos de projetos que não saíram do papel, o diretor Nikolaj Arcel e o roteirista/produtor Akiva Goldsman são os primeiros a encararem este desafio com o filme que serve tanto como uma continuação, quanto como uma mistura dos livros. Era impossível esperar algo idêntico às publicações, mas a maior decepção ao assistir A Torre Negra - que conta com Idris Elba no papel de Roland, o Pistoleiro, e Matthew McConaughey como seu arque-inimigo, o Homem de Preto - é ver que o filme tem medo de abraçar as características bizarras que definem o Mundo-Médio.

A Torre Negra é um exemplo clássico de filme que não passou intacto pelo complicado sistema de estúdios de Hollywood. Por um lado, temos boas ideias. A história tem início não com Roland, mas com o jovem Jake Chambers (Tom Taylor), cuja jornada começa em nossa Terra e termina ao lado do Pistoleiro. Junto com ele, somos apresentados, pouco-a-pouco, às ideias principais do filme. Há uma torre no centro de toda existência, e ela está sob ataque. Se ela cair, todos os mundos debaixo de sua proteção vão junto.

Mas, enquanto há um bom trabalho de introdução desse universoo filme peca justamente no desenvolvimento do mesmo. As regras nunca são estabelecidas. É difícil entender que tipo de lugar é o Mundo-Médio, onde Roland habita. Fãs do livro não terão o menor problema em identificar lugares e conceitos conhecidos, mas alguns pormenores são um desafio para boa parte da audiência. Ao invés de criar algo grandioso e épico, já descrito pelo próprio King como uma inspiração na obra de J.R.R Tolkien, Arcel e Goldsman entregam algo mais mastigado. E é nessa tentativa de criar algo mais mainstream que a identidade do longa se perde.

O filme passa pouquíssimo tempo no Mundo-Médio, e boa parte dos preciosos minutos lá são dedicados a diálogos expositivos, particularmente por parte do Homem do Preto (McConaughey). Já os elementos que poderiam diferenciar A Torre Negra de outros universos de fantasia são pouco explorados. Há uma cena que mostra um pouco do que a criação de King tem a oferecer. Vemos uma espécie de portal para outra realidade, repleta de criaturas estranhas e assustadoras, se manifestando junto de Roland e Jake. Mas, ao invés de apostar em tudo isso, o filme pula para uma luta contra um destes monstros que parece ter saído diretamente dos longas de Resident Evil, de Paul W. S. Anderson.

Onde A Torre Negra brilha é em seu principal personagem. Enquanto a atuação de Tom Taylor é sem inspiração e Jake parece estar sempre desconectado emocionalmente da história, Idris Elba entrega tudo que Roland Deschain, o último dos pistoleiros, merece. Assim como nos livros, suas emoções e lutas internas são transmitidas muito mais pelos olhos do que por palavras. Elba traz à vida alguém que está quebrado e que encontra em seu novo companheiro de viagem uma segunda chance de formar o que King descreve como ka-tet, uma família forjada pelo destino.

Além da atuação de Elba, A Torre Negra acerta em cheio na exibição das habilidades de Roland. Ao vê-lo recarregar uma arma em menos de dois segundos, ou distribuir headshots quando está cercado por 30 ou mais adversários, fica claro que esse não é simplesmente um patrulheiro usando um revólver comicamente grande. A luta final contra o Homem de Preto desaponta por ser uma festa de efeitos especiais digna de um filme de super-herói classe B, mas ainda sim, o longa entrega momentos e visuais que vão deixar todos os fãs sorrindo incontrolavelmente.

McConaughey, por sua vez, sofre por ser colocado em péssimas posições pelo roteiro. O Homem de Preto recebe boa parte dos diálogos ruins e expositivos, e tem situações que o forçam a ser um pouco cômico demais. Mesmo assim, ele consegue comunicar a pura maldade que existe dentro do personagem, algo que comprova suas habilidades como um ator vencedor do Oscar.

A Torre Negra deixa a impressão de ter sido feito por pessoas que têm uma grande reverência pela obra de Stephen King. Os momentos, as frases, as imagens que todo fã do livro sonhou em ver estão lá, mas se os detalhes da adaptação funcionam, o todo deixa a desejar. Na tentativa de reduzir o Mundo-Médio para torná-lo mais acessível, o estúdio perdeu a singularidade da história de Roland. O filme, como o próprio Pistoleiro fala, esqueceu a face do seu pai.

Nota do Crítico
Bom