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Crítica

A Sombra do Meu Pai faz passeio inesquecível com pai e filhos na Nigéria

Longa de estreia de Akinola Davies Jr. acompanha dois garotos num dia fundamental para a história do país

Omelete
4 min de leitura
21.04.2026, às 06H00.
A Sombra do Meu Pai faz passeio inesquecível com pai e filhos na Nigéria

Parte memória, parte filme autobiográfico, e parte registro de uma democracia sendo asfixiada antes mesmo de conseguir nascer, A Sombra do Meu Pai (My Father's Shadow), primeiro longa-metragem do diretor britânico-nigeriano Akinola Davies Jr., nos leva a Lagos em 1993. A visita à capital da Nigéria acompanha os irmãos Akin e Remi (Godwin Egbo e Chibuike Marvellous Egbo), que passam por uma experiência universal, a de acompanhar seu pai por um dia e descobrir o mundo adulto, dentro de um contexto muito específico: as eleições que dariam a presidência do país a M.K.O. Abiola, se não fossem anuladas pelos militares. É um dia inesquecível na vida do cineasta, que perdeu o pai quando jovem, e através dele, Davies Jr. cria um filme igualmente inesquecível.

Esse primeiro passo rumo à perda de inocência tem como seu clímax o momento em que os dois garotos testemunham a revolta do pai, Folarin (Sope Dirisu), e outros cidadãos nigerianos à transmissão televisiva que apaga o resultado daquela que foi considerada a eleição mais justa da Nigéria. Arregalados, seus olhos veem os adultos à sua volta desesperados quase como crianças, e não demora muito para a violência se aproximar deles. Logo, os dois terão uma percepção muito diferente do que é viver naquele lugar e naquela época. A beleza do filme de Davies Jr., escrito pelo diretor ao lado de seu irmão Wale Davies, porém, está no fato de que todos os eventos daquele dia contribuem para as pessoas que Akin e Remi eventualmente serão. Os sorvetes, as praias, as brigas, as broncas do pai. A crise política sublinha, acentua e engrandece uma ideia comunicada durante os 90 minutos de A Sombra do Meu Pai.

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Este feito vem primariamente através da direção de Davies Jr., que encena bem uma série de sensações por vezes indizíveis. A Sombra do Meu Pai é um ótimo filme sobre ter irmãos, assim como é um ótimo filme sobre pais e filhos, sobre amadurecimento, e tantas outras coisas. Podemos começar dizendo que este é também um grande filme sobre cidades, e – dado o contexto que Akin e Remi moram numa vila e estão passando o dia em Lagos – um filme sobre a peculiar, mas inconfundível, sensação de estar numa cidade maior que a sua. A cacofonia da ex-capital, cidade mais populosa da Nigéria, ganha vida pela câmera na mão do diretor de fotografia Jermaine Edwards, e seu ritmo frenético informa cada corte da montagem de Omar Guzmán Castro. Enquanto as imagens granuladas e superexpostas de Edwards dão a tudo a sensação de uma lembrança-sonho, esses elementos pautam tudo na realidade. Aquela Lagos existe, e causa uma profunda impressão nos irmãos. Não é à toa que ela persista para sempre em suas mentes.

Por mais que opere dentro de formatos muito familiares do cinema independente atual – adquirido pela MUBI nos EUA, este é um dos filmes com mais cara de MUBI que existe – e acabe um tanto quanto previsível emocionalmente, a excelência do longa combate bem seus clichês. Para A Sombra do Meu Pai, tão importante quanto essa ambientação é o guia que leva os protagonistas, e por tabela o espectador, por aquela tarde caótica. O título do filme não é acidente. Folarin é a lente pela qual cada situação é interpretada. Talvez a maior conquista artística de A Sombra do Meu Pai seja simular em nós a reação daqueles garotos. Quando uma discussão começa na lanchonete, quando uma conversa toma rumos inesperados ou quando surge um problema, o instinto é sempre o mesmo: como Folarin reage? 

O ator Sope Dirisu assume o posto aqui de, se não carregar o filme sozinho (as atuações dos irmãos Egbo são mais do que convincentes nos papéis dos irmãos Davies), ser seu centro moral e emocional. Expressivo mas nunca exagerado, firme mas nunca inflexível, Folarin não só anima a narrativa – é por causa dele, e de um salário atrasado, que a família vai a Lagos – como funciona, essencialmente, como seu destino. Partimos dele e voltamos para ele. De ânimo forte quanto a política e de fé inabalável quanto a Deus, esse homem transmite suas convicções sobre família, responsabilidade e trabalho em tudo que fala e faz, mas Davies Jr. evita a perigosa armadilha de transformá-lo numa espécie de santo profeta.

Folarin não é perfeito, e o filme tampouco se interessa em usá-lo como um grande didata de seus temas. Ele é uma pessoa cuja sombra de fato cobre Akin e Remi, mas ele é, primeiramente, só uma pessoa. Ao encarar a figura de seu pai mais como ser humano do que como uma ideia, Akinola e Wale Davies fazem de sua presença algo mais tangível. Em contrapartida, sua ausência pode ser devastadora. 

Apesar do destino de Folarin ser sugerido durante todo o filme, A Sombra do Meu Pai não se reduz a uma narrativa de trauma. Mais forte aqui é o conceito do registro – de um dia e de um evento, mas também de uma vida. O efeito, portanto, é de uma obra que não está interessada em dizer como aquelas 24 horas definiram a vida de dois irmãos, mas como elas encapsulam tudo aquilo que, durante suas infâncias, os fez quem são. O país, o pai, a relação um com o outro. E, sim, um dia inesquecível.

Nota do Crítico

A Sombra do Meu Pai

My Father's Shadow

2026
93 min
País: Nigéria, Reino Unido
Direção: Akinola Davies Jr.
Roteiro: Akinola Davies Jr., Wale Davies
Elenco: Godwin Egbo, Chibuike Marvellous Egbo, Sope Dirisu
Onde assistir:
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