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Crítica

A Qualquer Custo | Crítica

Faroeste urbano retrata a nova depressão americana e cria a vingança do homem comum

Natália Bridi
02.02.2017
18h22
Atualizada em
29.06.2018
02h43
Atualizada em 29.06.2018 às 02h43

Não roubar, não matar, não cobiçar. As lições são aprendidas desde cedo, supondo um mundo dividido entre o bem e o mal. Chega-se à vida adulta e a realidade torna-se cinza: fazer a coisa certa não significa que as coisas vão dar certo para você. É esse o raciocínio do roteirista Taylor Sheridan em A Qualquer Custo (indicado ao Oscar de Melhor Filme). Às vezes é preciso escrever certo por linhas tortas.

A história, que entrou para a Black List de 2012 (a lista dos melhores scripts não filmados) e agora recebeu uma merecida indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original, foca em dois irmãos - Toby Howard (Chris Pine) e Tanner Howard (Ben Foster) - que planejam uma série de roubos a uma rede de bancos em um Texas calejado pela recessão. Um tentou seguir o bom caminho, o outro acaba de sair da prisão.

O cenário de faroeste urbano é estabelecido já na primeira cena, quando o diretor David Mackenzie usa uma coreografada panorâmica para situar os personagens e a paisagem. O mesmo instante determina o ritmo do filme, em uma melancolia que é constantemente interrompida por explosões de adrenalina. A montagem (que rendeu uma indicação ao Oscar para Jake Roberts) valoriza cada momento, seja na ação ou diálogos, anunciando aos poucos, mas sem rodeios, o plano dos irmãos Howard.

Do outro lado está a lei. Jeff Bridges (indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) encarna Marcus Hamilton, um Texas Ranger prestes a se aposentar e disposto a cumprir com o seu dever uma última vez. A todo instante ele lança comentários racistas ao parceiro Alberto Parker (Gil Birmingham), que apenas ri do colega obsoleto. Hamilton é o caubói de outrora, em uma terra das oportunidades que não existe mais. Contraste que também aparece na trilha assinada por Nick Cave e Warren Ellis, que intercala faixas de country tradicional com instrumentais turbinadas por sintetizadores.

Enquanto “bandidos” e “mocinhos” se lançam em uma perseguição empolgante, A Qualquer Custo revela um país desolado, habitado pela tristeza. Hamilton tenta entender a motivação de um “homem bom” como Toby Howard para planejar uma série de roubos, mas suas ações são justificadas a todo instante por uma fadiga coletiva, vista em cada interlocutor que passa pelo caminho dos protagonistas. É a vingança do homem comum, cansado de trabalhar e ver seu esforço no bolso de outros.

Nota do Crítico
Excelente!