Filmes

Crítica

A Private War

A resistência de Marie Colvin

Natália Bridi
09.10.2018
16h02
Atualizada em
15.10.2018
11h51
Atualizada em 15.10.2018 às 11h51

O jornalismo é uma profissão que perdeu o encanto. Antes reconhecido como propagador dos fatos, o bom repórter precisa hoje gritar entre um emaranhado de informações desarticuladas e parte de um público incapaz de distinguir a verdade simples de uma mentira estúpida. O rumor conveniente é transformado em lei e a retórica é conscientemente substituída pela falácia. Nesse contexto desolador é preciso lembrar da resistência. Correspondente de guerra renomada, Marie Colvin transformou o compromisso com a verdade em um vício. Seu nome simboliza o valor do testemunho e o sacrifício exigido daqueles que têm coragem de olhar para o que ninguém quer ver. A Private War é um tributo a esse legado.

A private War
Aviron Pictures/Divulgação

Rosamund Pike se entrega a Colvin. Mais do que carregar com orgulho o tapa-olho que colore o mito da jornalista, a atriz mergulha no íntimo de uma mulher que tinha sonhos mundanos - filhos, amor verdadeiro, boas refeições - e lugar cativo entre os piores pesadelos da humanidade. Com força e delicadeza, Pike se dedica a entender o que torna Colvin ímpar: sua capacidade de olhar completamente para o outro, sem perder a vista de si mesma. Uma vocação que cobra seu preço paradoxal. Para viver,  é preciso colocar a própria vida em risco.

Enquanto Pike acerta no entendimento da personagem, o diretor Matthew Heineman tem dificuldade para traduzir essa compreensão. Vindo dos documentários e fazendo sua estreia na ficção, ainda que em um longa baseado em fatos, o cineasta sofre pela falta de equilíbrio entre seu apreço por detalhes na reconstituição dos eventos e os diálogos rebuscados elaborados pelo roteirista Arash Amel (com base no artigo de Marie Brenner para a Vanity Fair). Ainda que o retrato de Colvin seja elaborado física e emocionalmente, suas falas, assim como as dos seus interlocutores, tendem ao discurso. É uma questão de reverência pela história da biografada, mas que a afasta da realidade. Enquanto o título fala em uma guerra privada, referindo-se a luta de Colvin consigo mesma, o filme não passa de linhas básicas nesse objetivo, usando recursos pouco inspirados para representar os ataques de pânico e culpa que acometiam a jornalista. É Pike, e Pike apenas, que garante qualquer conexão emocional.

A estrutura da narrativa, contudo, - que divide os eventos em uma contagem regressiva para 2012, em Homs, durante os conflitos na Síria - é um acerto em torno da compreensão do que Marie Colvin representa publicamente. Conforme o tempo passa, sua voz fica mais clara, ainda que o mundo tenha cada vez mais dificuldade para ouvi-la. A Private War é uma bela homenagem nesse sentido. Em uma época que o bom senso precisa ser argumentado à exaustão, a história de Marie Colvin ensina que a verdade vale a pena, mesmo que seja preciso lutar até o fim.

Nota do Crítico
Bom