Filmes

Crítica

A Primeira Noite de Crime

Prelúdio da franquia é seu capítulo mais pertinente, mas segue aprofundando em clichês e caricaturas

Julia Sabbaga
20.09.2018
13h20
Atualizada em
27.09.2018
09h51
Atualizada em 27.09.2018 às 09h51

Quando Uma Noite de Crime foi lançado, em 2013, trouxe uma boa ideia, envolta em uma trama simples. A premissa de uma noite onde tudo é permitido foi inserida na vida de uma família de classe alta e deu espaço a um suspense de invasão domiciliar interessante. Mais do que isso, abriu possibilidades para uma discussão muito maior do que o longa original pretendia.

Universal Pictures/Divulgação

Por isso, o desenvolvimento da franquia para Uma Noite de Crime: Anarquia e 12 Horas para Sobreviver: O Ano da Eleição, fez bastante sentido. O roteirista e diretor dos três primeiros filmes, James DeMonaco, reconheceu o potencial da ideia por trás do experimento original e expandiu para a sociedade como um todo. E apesar de sempre confiar em personagens caricatos e pesar a mão em clichês durante todos os filmes, a ideia original do expurgo foi sempre irresistível; apesar de seus defeitos, a desculpa para assistir um filme de ação, com violência considerável, e ainda mascarado pela ideia de uma tese consistente, é atrativa.

Mas o aprofundamento da tese de Uma Noite do Crime nunca foi carregado tão bem e executado de forma tão pertinente quanto em seu último capítulo, o prequel A Primeira Noite de Crime. Pela primeira vez carregado por um outro diretor, Gerard McMurray, o novo filme abusa das caricaturas tradicionais, mas traz um elemento real tanto político como social, e a mensagem da franquia nunca ficou tão clara. Ao retratar como a sociedade lidou com o experimento anárquico pela primeira vez, McMurray (ainda com roteiro de DeMonaco) reflete questões latentes da realidade americana atual e, ao mesmo tempo, justifica o caos que a série sempre retratou. Finalmente, o universo dos filmes responde a pergunta: desde quando o ser humano é tão psicopata?

A Primeira Noite de Crime se passa exclusivamente em Staten Island. No teste inicial do experimento onde os seres humanos podem expurgar sua raiva e descontentamento com o mundo, o partido político já conhecido desde o primeiro filme da franquia – os Novos Pais Fundadores – justificam o evento com dados psicológicos e cadastram os habitantes da ilha como as primeiras “cobaias” para o futuro. Apoiados pela psicóloga Dra. Updale (Marisa Tomei), os políticos encontram a justificativa perfeita para apoiar a ideia; o ser humano só precisa de um canal para aliviar emoções. Mas um dos maiores valores do longa é retratar, pela primeira vez, o que de fato (provavelmente) aconteceria se a noite de crime fosse implementada. Cidadãos dariam festas nas ruas e apenas psicopatas sairiam para cometer crimes horrendos. Homicídios e absurdos só acontecem a partir do momento em que o governo coloca mercenários na rua para limpar a população mais pobre (leia-se: negros e latinos), e esta se defende.

Com um elenco protagonizado por latinos e afro-descendentes, A Primeira Noite de Crime é, dadas as proporções, um filme que remete a Corra!. Não pela qualidade de seu roteiro, atuações ou direção, mas porque é um filho da era Trump. Com referências diretas ao presidente americano, desde uma cena em que a protagonista Nya (Lex Scott Davis) é literalmente agarrada em suas partes íntimas e xinga seu agressor,fazendo referência a infame frase de Trump, às manifestações de Charlottesville, o filme não perde tempo em mostrar neo-nazistas e a Ku Klux Klan inseridos na sociedade americana, e um massacre na igreja. Tudo é um claro paralelo à vida das minorias nos EUA e uma metáfora em relação desesperança destas populações sob o governo do presidente americano. Neste sentido, o filme é um retrato crítico bem feito da realidade.

Apesar da profundidade que A Primeira Noite de Crime dá aos seus capítulos anteriores, o filme não escapa de suas tradicionais falhas. Frases estereotipadas, personagens caricatos – principalmente o vilão Skeletor, um maníaco com feridas estilizadas e seringas nas mãos em estilo Freddy Krueger – e resoluções frágeis permeiam a produção. Mas a pouca pretensão torna seus defeitos algo de menor importância, até porque, em termos de ação, o filme é bem realizado. O herói principal, o gângster Dmitri (vivido pelo ótimo Y'lan Noel), protagoniza cenas violentas com capacidade carrega merecidamente as referências que já circulam sobre ele, como o apelido “Rambo negro”.

A Primeira Noite de Crime é uma continuação natural da franquia e aprofunda tanto seus defeitos quanto seus potenciais. Um prelúdio apropriado, o longa se torna respeitável por explorar uma premissa tão absurda do modo mais realista, tornando-se o título mais relevante que a série de filmes já fez.

Nota do Crítico
Bom