A Prima Sofia

Filmes

Crítica

A Prima Sofia

Drama desafetado conta história de formação pelas cores do verão

Marcelo Hessel
19.08.2020
13h26
Atualizada em
19.08.2020
13h42
Atualizada em 19.08.2020 às 13h42

Selecionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, no ano passado, o drama de formação A Prima Sofia (Une Fille Facile) faz do balneário francês um dos seus personagens principais. A trama usa Cannes como enquadramento para determinar os humores neste pequeno filme cujas viradas não cedem facilmente ao texto melodramático. 

Na trama, Naïma (Mina Farid) acabou de completar 16 anos e recebe a visita da tal prima Sofia (Zahia Dehar), nas semanas que marcam suas férias no balneário. Sofia é a “garota fácil” do título original, diz ser seis anos mais velha que Naïma e já entende as dinâmicas de poder do sexo. Sofia veio de Paris, tem uma vida lá, mas sempre que ela fala sobre essa outra vida parece um discurso postiço. A diretora e corroteirista Rebecca Zlotowski a apresenta mais como uma materialização carnal das projeções do desejo: no primeiro plano do filme, ela chega de lugar nenhum, nadando, nua, como se fosse mesmo uma divindade feita do barro primordial neste Éden mediterrâneo, e a câmera precisa esquadrinhar o corpo de Sofia para se certificar de não ser uma miragem do calor.

Ao longo de dias e noites de banhos de mar e rolezinhos de discoteca, iates e karaokê, Naïma e sua prima interagem como se Sofia fosse sua melhor amiga imaginária. A adolescente deposita na menina-mulher modelo suas fantasias e o amadurecimento de Naïma envolve aceitar que a própria noção da existência de Sofia está condicionada à duração do verão. Zlotowski faz o clássico filme de férias de verão, que passa rápido como os prazeres da temporada, mas deixa nos jovens as marcas das descobertas do mundo adulto.

A partir dessa premissa bem conhecida, que poderia ser uma camisa-de-força temática, Zlotowski consegue criar um drama muito particular, com escolhas sutis de casting, fotografia e direção que ajudam a dar a A Prima Sofia uma cara e uma voz própria. Cannes favorece a questão da fotografia, com suas paisagens de contrastes bem definidos. Se a cidade é um protagonista do filme, é muito por conta de uma seleção bem cuidadosa de cenários que a diretora faz, tendo as cores como norte.

Temos aqui aquele caso de estudo em que o filme usa o cromatismo para contar a história, mas não de um jeito exibicionista, de fetiche. As cores se impõem de um jeito muito orgânico: o âmbar dos postes de luz na orla à noite marca o horário da melancolia, da solidão, do fechamento de um dia que exigiu dos personagens esforços invisivelmente; o verde da casa da mãe de Naïma sublinha o acúmulo do tempo, uma estagnação que a menina recusa para si; há os muitos azuis e dourados, claros durante o dia para denotar o que é natural e inviolável, mais escuros de noite para sugerir que os limites ficaram um pouco mais difusos no sombreado.

E há o vermelho-sangue da discoteca, que surge para demarcar os conflitos mais fortes do filme, os ânimos exaltados. As cenas de balada são uma boa síntese de como Zlotowski usa as cores para demarcar os tempos fortes do filme, sem banalizar a história com enfrentamentos óbvios de dramaturgia que se resolveriam com facilidades de texto. Não há violência além de uma ou outra subida de voz, as trocas comerciais não resultam em situações de constrangimento, mesmo as brigas têm uma brevidade regulamentar. Em nenhum momento o filme esquece que é verão: tudo opera sob a lógica das férias, não há nada de hiperdramático que possa acontecer além do fim das férias em si.

Com o pano de fundo e a paleta escolhidos, Zlotowski preenche a tela do seu filme com uma seleção de elenco que tem, igualmente, uma forte consciência pictórica. Mina Farid é a menina morena a meio caminho das descobertas, já deixou de ser uma figura virginal e seus traços árabes denotam uma força que a precede e a protegerá. A barba e o sorriso fácil de Nuno Lopes resumem a ideia de uma virilidade descomplicada e convidativa que são essenciais para que o filme funcione, em suas dinâmicas de sexo, no limite entre a atenção e a entrega. Já Benoît Magimel, quase fantasmagórico na clareza da pele, do cabelo e dos olhos, é a representação de um ideal de serenidade imutável. 

E, não menos importante, há Sofia, vivida pela francoargelina Zahia Dehar, ex-acompanhante de luxo e modelo de lingeries, que Zlotowski banca no filme para ser ao mesmo tempo objeto passivo e esfinge. Dehar empresta a Sofia o que a personagem precisa, um sorriso de Monalisa que por toda a eternidade a manterá sob um véu de mistério e aparências. Cada personagem dá a Naïma o que tem, da mesma forma que seu amigo gay lhe oferece sempre um ombro. Nesta história da adolescente abrindo-se para o mundo, muita coisa se resolve não só nas cores mas principalmente na alteridade, e nesse sentido A Prima Sofia é um filme espantosamente simples sobre o que - na vida com os outros - nos torna adultos. 

Nota do Crítico
Ótimo