A Pequena Amélie tem charme e sensibilidade, mas em quantidade limitada
Com breves 77 minutos, animação indicada ao Oscar tem visual lindo
Créditos da imagem: Mares Filmes
Normalmente, animações protagonizadas por crianças pequenas procuram enfatizar a experiência de descobrimento do mundo, e apresentam seus personagens como inocentes e maravilhados. Nada disso é um absurdo, claro. Isso é parte inerente da primeira infância, e A Pequena Amélie conta com cenas e mais cenas reforçando essas ideias. O que torna a animação indicada ao Oscar 2026 tão interessante, contudo, é sua disposição a explorar outras facetas dessa idade.
Há, por exemplo, birra. Egoísmo. Raiva. Teimosia. A titular pequena Amélie tem tudo isso, e o filme de Maïlys Vallade e Liane-cho Han se mostra tão interessado em abordar esses conceitos quanto em mostrar a criança como divertida, amorosa e fofa. É um retrato mais completo, e portanto mais interessante, de um momento na vida onde a sua interpretação dos acontecimentos, pessoas e ambientes à sua volta é a única possível. Quando não se sabe de nada, cada conclusão tomada se torna absoluta, e para Amélie isso só pode significar uma coisa: ela é Deus.
Essa suposição arrogante, assim como todas as outras características mais difíceis de Amélie, nunca é julgada pelo filme. Há um entendimento da parte dos cineastas de que Amélie está, claro, aprendendo a viver. Ela vai errar, e vai perceber que nem tudo é bem como imagina. A Pequena Amélie aborda o crescimento de sua protagonista de maneira franca, livre e genuinamente curiosa. Quando a encontramos – aos dois anos e meio de idade, quando ela passa por um despertar de consciência e começa a raciocinar, perceber e interpretar – seu pai trabalha como cônsul da Bélgica no Japão em 1969, e sua família vive perto das montanhas, onde na primavera há jardins coloridos e no inverno há neve apaixonante. Tudo é novo, e tudo parece ter sido feito para ela.
Passamos a enxergar o mundo através de seus olhos, e usando uma estética de aquarela para pintar seu universo, A Pequena Amélie traz a imaginação da garota à vida. Seu primeiro contato com chocolate, cortesia da avó; seu interesse nas tradições japonesas apresentadas pela cuidadora Nishio-san; sua raiva dos irmãos mais velhos que disputam a atenção dos pais; seu desgosto por carpas e sua paixão pelo mar – cada episódio da vida de Amélie é concebido com toques diversos e coloridos de surrealismo, sequências que traduzem para o espectador a criatividade que só uma mente infantil consegue ter.
A beleza visual do longa se revela não só como a maior razão para recomendá-lo, como essencial para o sucesso do projeto. Isto porque, depois de estabelecer a situação inicial da vida de Amélie, o filme levanta, através dessas aventuras, uma série de ideias. Perda, frustração, medo, cultura, rivalidade, e assim vai. Com breves 77 minutos, porém, A Pequena Amélie impõe limites a si mesmo. Seu charme e sensibilidade freiam diante da decisão dos diretores de não ir mais a fundo.
Com isso, não quero dizer que o filme é superficial. A Pequena Amélie tem, claramente, muitos pensamentos sobre tudo que aborda, mas não se mostra disposto a encenar todos eles. O resultado não é uma obra ruim ou defeituosa, mas sim uma que decide parar antes de aproveitar todo o seu potencial. Os diretores se satisfazem nas brincadeiras visuais que surgem com as andanças de Amélie. Diante da beleza do estilo de animação, é difícil julgar a decisão. A Pequena Amélie é constantemente convidativo em seu visual, e por mais que não aproveite ao máximo seu olhar franco de uma criança com dois para três anos, ainda há uma perspectiva muito válida, e única, em sua execução.
A Pequena Amélie estreia nos cinemas em 12 de março com distribuição da Mares Filmes.