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Crítica

A Odisseia de Christopher Nolan é um épico sobre culpa e megalomania

Diretor junta elenco estelar para provar que sua filmografia não está tão longe assim da obra de Homero como muitos pensavam

Omelete
7 min de leitura
Atualizada em 15.07.2026, ÀS 13H39

É comum encontrarmos nas obras de diretores consagrados as marcas de suas personalidades ou histórias. Steven Spielberg com laços e dramas familiares; Martin Scorsese e a fé; Spike Lee e a paixão pelo cotidiano nova-iorquino; Ryan Coogler e a cultura afro-americana. Christopher Nolan, por sua vez, injeta em suas tramas a megalomania humana. Do homem que quer implantar uma ideia na mente de outro, em A Origem, à viagem aos confins do universo para salvar a humanidade, em Interestelar. Do herói que acredita que pode salvar uma cidade sozinho - e, quando pede ajuda, vê a tragédia acontecer - na trilogia Batman, ao homem que reúne os cientistas mais brilhantes para provar sua tese e criar uma arma nunca antes vista, em Oppenheimer.

Todos estes protagonistas são assombrados pelos fantasmas do passado, pelas decisões e consequências, e pela tentativa constante de voltar para casa - para o conforto do amor ou para um lugar de paz. Não surpreende, portanto, que o diretor tenha escolhido adaptar Odisseia, a clássica história de Odisseu (o general que invadiu Troia), como o filme seguinte ao vencedor do Oscar Oppenheimer. Odisseu personifica tudo o que Nolan sempre levou ao cinema. A ilusão da grandeza, a genialidade amaldiçoada e, como o nome da obra diz, uma odisseia pelo retorno ao lar.

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Nolan, porém, enfrenta uma missão. Conseguiria ele adaptar sua assinatura hiper-realista e descritiva a uma obra que envolve mitologia grega, deuses e monstros? Acostumado a thrillers cheios de ternos, cores frias e personagens sisudos, havia um consenso de que Nolan precisaria se despir destes maneirismos. No entanto, o diretor volta a provar por que é um dos autores mais respeitados do cinema moderno e o homem de confiança de seu estúdio (ou de toda Hollywood). Em vez de mudar seu cinema, Nolan aproxima a obra de Homero de sua própria filmografia.

Claro, não vemos Odisseu e Telêmaco de terno e gravata, mas vemos a obra se tornar muito mais sóbria do que os cantos homéricos. O filme deixa explícito, na cartela que abre a história, que estamos entrando em um mundo com “alguma magia”. A fantasia, para Christopher Nolan, não precisa de floreios: ela está na fé dos homens, nas sombras que nos perseguem e nos desafios para cumprirmos nossa missão na Terra.

É assim que encontramos Penélope (Anne Hathaway) e Telêmaco (Tom Holland), esposa e filho de Odisseu (Matt Damon), que esperam há 20 anos o retorno do herói da Guerra de Troia. Com os pretendentes ao lugar vago do rei enchendo o palácio, o jovem príncipe decide partir em busca de respostas. Longe dali, Odisseu vive perdido ao lado de Calipso (Charlize Theron) e, a partir de suas lembranças, conhecemos o caminho que ele percorreu desde o fim da guerra.

A não linearidade da trama do livro Odisseia é uma das grandes marcas da arte e literatura clássicas, e Nolan se aproveita disso para contar a história da forma que mais gosta. O vai e vem temporal costura a viagem de Odisseu e sua amargura perante as conquistas - e as consequências delas - com o drama da família que vive o espólio da ausência.

Assim como em Oppenheimer e seu dilema moral após criar uma arma capaz de dizimar a vida de milhares de pessoas em segundos, a jornada de Odisseu também é um caminho de penitências e um acerto de contas com a própria consciência. Chamado de herói, ele vê em sua criação um mal que pode acabar de vez com a humanidade como ele a conhece. Ao criar um presente em nome dos deuses, infestado de ódio, vingança e ressentimento, Odisseu entrega ao mundo uma chaga que será contada e recontada por milhares de anos. E é aí que reside a grande odisseia que ele precisa enfrentar: despir-se do manto do herói e do líder respeitado por seus comandados.

A Odisseia
Divulgação

Menos inspirado quando precisa se sujar com o melodrama, Christopher Nolan encontra no terror o maior mérito de A Odisseia, que pode ser dividida em três grandes momentos. O primeiro é o encontro da tropa com o ciclope Polifemo (Bill Irwin), uma criatura bizarra que prende o grupo em uma caverna. Mortal e faminto, o gigante caça os homens e os amaldiçoa quando preferem utilizar a violência antes do diálogo - um reflexo dos anos de guerra que ocupam a mente e o coração do protagonista. O segundo é o encontro com Circe e o uso cirúrgico do body horror, com destaque absoluto para Samantha Morton, que rouba a cena em meio à encenação da gula e o desespero da fome.

O terceiro, e um dos pontos altos do filme, é a descida ao submundo para o encontro com Tirésias (James Remar), o profeta cego. A cena mostra a força da dobradinha entre Nolan e o diretor de fotografia Hoyte van Hoytema, no quinto filme juntos. O azul-escuro do céu se mistura ao preto da terra em um momento com sacrifícios animais, mortos-vivos e previsões do futuro, que acaba se tornando um acerto de contas doloroso entre Odisseu e seus soldados mortos na guerra (em um ótimo momento de Elliot Page) e as mentiras que contou para alcançar a vitória. Impressiona ainda o incrível design de figurino da armadura de Agamenon (Benny Safdie), tanto neste cenário quanto nas aparições em Troia.

Matt Damon entrega um trabalho que certamente será lembrado ao longo da temporada de premiações, expressando uma gama complexa de sentimentos ao longo de quase três horas. São destaques ainda o fantástico trabalho de Anne Hathaway, que transmite com precisão a dor e a amargura da rainha que não sabe o destino de seu rei, e John Leguizamo, intérprete do fiel porqueiro de Odisseu - o retrato perfeito da resiliência e da fé. Tom Holland sofre um pouco com o início truncado da trama, especialmente antes de Telêmaco partir para encontrar Menelau (Jon Bernthal) em Esparta. Entretanto, a segunda metade, junto com o drama da conclusão, ajudam a dar mais fisicalidade e expressão aos sentimentos do jovem. Já Robert Pattinson volta a mostrar sua força para criar papéis mesquinhos com a ganância covarde de Antínoo.

A Odisseia
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A megalomania de Nolan está presente também na parte técnica. Acostumado com grandes encenações, dezenas de atores nos sets e efeitos práticos, A Odisseia impressiona pelo escopo da produção. Em um momento em que o cinema de entretenimento virou um "jogo dos sete erros" para analistas de efeitos visuais e gradação de cores no YouTube, a utilização de locações reais e câmeras IMAX dá ao filme a sensação de um épico à moda antiga em um cinema de escala que raramente vemos fora do circuito tradicional de blockbusters. Não por acaso, quando Nolan se aventura fora dessa “zona de conforto” prática, a computação causa estranheza, como no momento com a criatura Cila e seus tentáculos.

É óbvio que A Odisseia se fortalece desse artesanato de Nolan, Hoytema e do resto da equipe para o marketing, gerando expectativas para o "épico do século" - o que o filme, na verdade, não é. Mesmo em seus momentos de maior escala, como quando vemos a invasão de Troia, é na forma como a história é contada e na emoção que reside o ponto alto da produção (uma bela resposta ao diretor frequentemente acusado de frieza). Ainda que seja incrível ver Matt Damon, Himesh Patel e companhia correndo por cenários imensos, é quando Odisseu senta em uma escada para confessar suas angústias, ou quando se amarra ao mastro do barco para enfrentar a verdade das sereias, que Nolan mostra por que precisava contar essa história.

Ao fim, A Odisseia funciona quase como um prelúdio espiritual de Oppenheimer. São histórias sobre homens (ou heróis) que encontram, em suas maiores vitórias, a destruição do mundo que tanto queriam proteger. Nolan entende melhor com Odisseu do que com Oppenheimer que a maior guerra é a interior, e não contra milhares de soldados. 

A Odisseia
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O tempo, constante obsessão na filmografia do diretor, é o grande deus dessa jornada; é ele quem proporciona os julgamentos, o aprendizado, o arrependimento e a volta para o conforto do lar. É esse mesmo tempo que carrega consigo a repetição dos erros de Odisseu e tantos outros ao longo da história.

E o que é A Odisseia, no final das contas, se não a volta do próprio Nolan para o lugar onde ele se sente mais confortável? Assim como Odisseu, Nolan zarpa mais uma vez rumo ao horizonte.

Nota do Crítico

A Odisseia

The Odissey

14
Duração: 172 min
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Elenco: Benny Safdie, John Leguizamo, Mia Goth, Lupita Nyong'o, Tom Holland, Jon Bernthal, Robert Pattinson, Matt Damon, Zendaya, Anne Hathaway
Onde assistir:

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