A Noiva! emerge do caos criativo como uma obra-prima imperfeita
Maggie Gyllenhaal deixa sua mente delirar em cima do clássico Frankenstein
Créditos da imagem: A Noiva! (Reprodução)
O tempo apaga muita coisa, e muda muitas outras. A percepção que temos de obras de arte não é diferente. Lançado há quase um século, A Noiva de Frankenstein (1935) hoje é considerado clássico, mas foi feito de contragosto pelo diretor James Whale, que inicialmente recusou o projeto e só mudou de ideia quando o estúdio topou bancar outro filme seu (o pouco visto Estigma Libertador). Convencido que a sequência não deveria existir, e que a ideia já havia sido “explorada a exaustão” no primeiro filme, Whale decidiu só se divertir, e o resultado é 1h15 de puro delírio criativo – bailarinas encolhidas dançando dentro de jarros e tudo o mais.
Nascido de puro cinismo, enfim, o Noiva original se elevou ao patamar de arte porque o artista que o realizou se comprometeu a não jogar fora nenhuma ideia que passasse pela sua cabeça. Sem filtro. Sem compromisso com nenhuma coerência além da que existe dentro da mente criativa do cineasta. De certa forma, então, Maggie Gyllenhaal está só seguindo os passos de seu predecessor neste A Noiva!.
O longa, segundo da carreira da diretora (após o excelente, e bem mais sóbrio, A Filha Perdida), já começa sem vergonha de emprestar do Noiva de 1935. Assim como Elsa Lancaster no original, aqui Jessie Buckley aparece primeiro como Mary Shelley, a autora do romance Frankenstein, que narra como passou mais de um século no além-mundo matutando a sequência de sua obra-prima, e que agora – utilizando o corpo de uma acompanhante de luxo chamada Ida, também vivida por Buckley – pretende manifestá-la no mundo real… ou quase isso.
Isso porque Gyllenhaal, com a ajuda providencial da designer de produção Karen Murphy (Elvis), decide ambientar a sua história nos glamourosos anos 1930, passeando de forma fluente por cidades estadunidenses como Chicago, Nova York e Niagara Falls. A Noiva!, no entanto, reimagina esses cenários por via do caos metropolitano da 5ª Avenida dos anos 1980 (talvez o tempo em The Deuce tenha afetado Gyllenhaal mais do que parece…), ou da República de Weimar alemã pré-Segunda Guerra. Há algo de Cabaret, de latentemente queer e perigoso, no mundo que ela constrói, registrado com proximidade e urgência pela câmera de Lawrence Sher (Coringa), que equilibra a visão grandiosa de suas colegas com um olhar que impede que o filme perca a sua humanidade.
Até por isso, quando Ida é revivida pela Dra. Euphronius (Annette Bening) a pedido de Frank (Christian Bale, perfeitamente frágil como o papel demanda), a criatura original reanimada pelo Dr. Frankenstein, ela surge nesse mundo repleta de conflitos. Meio impulso revolucionário, meio carência afetiva, ela é inteiramente formada por sinapses disparadas a esmo, um “fio desencapado” que muitas vezes fala em frases curtas e rimas, associações de palavras que definem a intermitência de suas vontades.
Em resposta a essa personagem fragmentada, Buckley entrega uma performance corporal irrepreensível, uma tour de force de horror à la Eva Green em Penny Dreadful ou Lily-Rose Depp em Nosferatu, com a diferença que seu suplício físico não a define. Em certo ponto de A Noiva!, a personagem título vira símbolo, trampolim de um movimento que se espalha pelo mundo semi-imaginado do texto de Gyllenhaal de forma incendiária. A ideia de expor as violências misóginas da ordem social vigente, e de interrompê-la como violência, não é profunda nem surpreendente – mas funciona como discurso pop.
Ademais, o texto de Gyllenhaal faz d’A Noiva uma heroína acidental e acidentada, arrastada para os holofotes por um amor fatal e mentiroso que, mesmo assim, parece mais seguro e verdadeiro do que todos os que viveu antes disso. Ela está no olho do furacão, mas o furacão importa tanto quanto ela, jogando para o ar uma mistura de formatos (o IMAX aparece no filme somente em sequências de sonho ou delírio), efeitos, técnicas e voos criativos dos mais diversos que se sucedem de forma corajosa pelas pouco mais de 2h de duração. A Noiva! não joga nada fora, não se esconde em nenhum momento.
O tempo muda muita coisa, mas não consegue mudar algumas: exatamente como o filme de 1935, A Noiva! é uma obra-prima imperfeita, nascida do completo caos criativo. Talvez você não o ame, mas é muito difícil se ressentir de sua existência.