Cena de A Noite é Delas

Créditos da imagem: Sony Pictures/Divulgação

Filmes

Crítica

A Noite é Delas

Comédia com Scarlett Johansson trabalha com roteiro pouco original, mas funciona em suas sutilezas

Julia Sabbaga
25.05.2020
15h51

Não há nada de original em levar cinco amigas para uma festa de despedida de solteira e criar comédia a partir de desastres, principalmente em 2017, quando A Noite é Delas foi lançado. Paul Feig fez isso em 2011 com seu aclamado Missão Madrinha de Casamento e Leslye Headland recriou o cenário mais uma vez em 2012 com o ótimo Quatro Amigas e Um Casamento. Mas a reunião de uma estrela como Scarlett Johansson e uma comediante como Kate McKinnon, além de um elenco coadjuvante certeiro, é o que chama atenção na comédia escrita e dirigida por Lucia Aniello (Broad City). Mesmo sem o brilho de suas antecessoras, e apesar de lidar com uma instabilidade cômica que prejudica seu desenrolar, o longa de Aniello acerta quando confia nas sutilezas da vida entre mulheres e é temperado por ótimos momentos. 

A Noite é Delas se estabelece basicamente como um Se Beber, Não Case! com mulheres, começando pela reunião de quatro amigas de faculdade em Miami para a despedida de solteira de Jess (Johansson). Lá, Alice (Jillian Bell), Blair (Zoë Kravitz) e Frankie (Ilana Glazer) conhecem Pippa (McKinnon), amiga de Jess do intercâmbio, e depois de muita bebida e drogas, a festa chega ao seu abrupto fim quando elas acidentalmente matam um stripper. A partir daí, o longa se torna uma comédia de catástrofe, na qual as cinco mulheres tentam ficar sóbrias, lidam com as consequências do ato e procuram se safar do assassinato. 

Logo de cara, existe uma falta de fluidez óbvia em A Noite é Delas, talvez pela falta de habilidade do longa em construir e apresentar suas personagens. Apesar de Jess e Alice serem bem fundamentadas, e Pippa servir como o elemento excêntrico (e sempre ótimo, diga-se de passagem) representado frequentemente por McKinnon, Blair e Frankie não tem personalidades bem construídas e acabam se tornando coadjuvantes estereotipadas com pouca recompensa. Por isso, o que chama mais atenção é um conflito constante na amizade entre Jess e Alice, que cria a verdadeira empatia necessária para estabelecer uma relação com o espectador. Fora isso, A Noite é Delas se desenvolve mais com um excesso de piadas, e como a taxa de acerto é mediana, ele transmite uma inconstância por toda sua duração. 

Mas A Noite é Delas tem seu sucesso, em primeiro lugar, na surpreendente e peculiar inversão de gêneros que, apesar de parecer óbvia no começo, só evolui em qualidade e graça. A festa de despedida de solteiro do marido de Jess, Peter (Paul W. Downs), mostra o lado sensível e singelo dos homens, e só se torna mais romântica quando os amigos convencem Peter a sair em uma jornada atrás de sua futura esposa, construindo um cenário absurdo que também rende boas risadas. E enquanto as melhores piadas de A Noite é Delas se revelam quando o filme é mais descarado, tirando sarro da carreira de Rob Lowe ou o tom novelesco de Orange Is The New Black, ainda há espaço para a atuação física - de McKinnon principalmente. 

Ainda, a comédia de Aniello funciona bem quando ela baseia suas forças na amizade e intimidade feminina, desde o palavreado, os costumes e os sentimentos únicos que se expressam na relação entre as garotas. Mesmo que Missão Madrinha de Casamento tenha feito isso de um jeito melhor, o ciúmes de Alice em relação à Pippa é bem-construído, principalmente quando, na discussão final, o jogo de amor e ódio se abre entre as protagonistas. Mas vale dizer que a atuação de Johansson não só combina na parte dramática como por toda a duração de A Noite é Delas. É refrescante ver a atriz, mais conhecida por seus papéis mais intensos, se apresentar com mais leveza e poder demonstrar seu talento para comédia - que ela já havia exibido em ótimas esquetes de Saturday Night Live. 

Fora do círculo de mulheres, existe uma série de coadjuvantes que aparece para roubar o holofote em A Noite é Delas, com grandes nomes que passam por Ty Burrell e Demi Moore, e dupla de Dean Winters e Enrique Murciano, que surge na reta final contribuindo para um ótimo encerramento da trama. Aliás, este é um dos poucos casos de um filme de comédia que fica melhor no fim, e rende boas risadas em seu clímax e conclusão do terceiro ato. A Noite é Delas pode não vencer na originalidade, mas há uma quantidade louvável de acertos singelos que recompensa a viagem.

Nota do Crítico
Bom