A Música da Minha Vida

Créditos da imagem: A Musica da Minha Vida/Warner Bros/Divulgação

Filmes

Crítica

A Música da Minha Vida

Sem medo de ser brega, longa reflete perfeitamente o ato de se apaixonar pela música e faz jus às canções de Bruce Springsteen

Julia Sabbaga
19.09.2019
15h00
Atualizada em
19.09.2019
16h22
Atualizada em 19.09.2019 às 16h22

Seria estranho esperar sutileza de uma história que envolve anos 80, Bruce Springsteen e racismo na Inglaterra. Por isso, a diretora Gurinder Chadha (Driblando o Destino), fez muito bem em passar longe disso em A Música da Minha Vida, longa inspirado na história do jornalista Sarfraz Manzoor. Sem medo de ser brega, o filme embalado por canções do Chefe funciona como um sonho, com montagens musicais tocantes, e ousa ser romântico, soando como um refresco em um mundo cínico. 

A dramédia musical conta a história de Javed (Viveik Kalra), um estudante de origem paquistanesa que lida com a vida rígida da sua família e aprende a encontrar sua independência quando conhece a música de Bruce Springsteen. Auxiliado por sua professora (Hayley Atwell), um amigo que lhe apresenta a música de Bruce (Aaron Phagur), e a politizada Eliza (Nell Williams), Javed encontra um significado maior na vida e acha inspiração para escrever suas próprias poesias. Tudo isso causa um rebuliço em sua tradicional família, que ainda vive tempos difíceis com a Era Thatcher e a falta de empregos na pequena cidade de Luton.

A Música da Minha Vida já comove na representação da família de Javed, que nunca é simplificada, e ao levar à tela a dificuldade do protagonista em se encaixar no seu bairro e escola. Mas a partir do momento em que Javed entra em contato com Bruce Springsteen, o filme é impulsionado a um outro patamar. A partir daí, o longa encontra seu brilho único representando o entendimento gradual das letras e seu efeito na alma de Javed, não apenas confiando na ótima atuação de Kalra, mas em sua direção. As montagens transmitem perfeitamente o sentimento de êxtase de Javed em encontrar alguém que diz tudo que ele não sabia que pensava.

As cenas musicais, que parecem videoclipes, atingem o objetivo de abrir um sorriso em quem já foi tocado pelo sentimento de pertencimento que domina o protagonista. Desde a primeira vez que ele se vê na letra de “Dancing In The Dark” e “The Promised Land”, quando canta “Thunder Road”, ou na doce coreografia totalmente anos 80 de “Born To Run”, Chandra mostra uma habilidade certeira de tornar a cafonice algo cativante. Flutuando levemente pelo plano da surrealidade, mas nunca tirando o pé do chão, o elemento musical é entregue de modo original.

Ainda, é impressionante a capacidade da história de entregar profundidade a cada um de seus coadjuvantes. Nada é passado de modo leviano, e apesar do foco ser a catarse de Javed, as dores pessoais de cada um que o circunda têm o seu próprio momento. Uma das cenas mais emocionantes do filme, inclusive, nem envolve o protagonista, e só reflete o peso carregado pelo pai de Javed, Malik (Kulvinder Ghir), se mostrando vulnerável por uma única vez. Desse modo, A Música da Minha Vida faz jus à universalidade das músicas de Bruce Springsteen. É exatamente porque elas falam da vida do homem comum que as letras de um dos cantores mais tradicionalmente americanos ressoam na vida de um descendente de paquistaneses na Inglaterra.  

Uma história de amor, música e auto-conhecimento, A Música da Minha Vida pode ser açucarado demais para alguns, mas a coragem de ser um filme diferente é o que o torna tão humano. Envolvendo com canções lendárias de um dos maiores nomes da música, o filme serve tanto como um alívio em um mundo sombrio como um lembrete singelo da importância de se deixar levar. 

 

Nota do Crítico
Ótimo