A Mula

Créditos da imagem: Warner Bros./Reprodução

Filmes

Crítica

A Mula

Clint Eastwood reafirma seu pensamento político em filme com a leveza do dever cumprido

Marcelo Hessel
15.02.2019
11h58

Bradley Cooper brinca em A Mula que Clint Eastwood é um daqueles velhinhos que perderam o filtro da correção política, e o personagem de Eastwood responde que nunca teve filtro nenhum. A fala é central para entender como o filme se encaixa na obra do cineasta. Ainda que A Mula tenha visivelmente um caráter elegiático e testamental - antes de mais nada, pelo fato de Eastwood assumir a função dupla de diretor e protagonista aos 88 anos - não convém cair na armadilha da condescendência.

A Mula é um filme-desabafo sobre um estado das coisas no mundo da mesma forma que O Estranho Sem Nome, Um Mundo Perfeito ou Gran Torino também foram, há 40 anos, 20 anos, 10 anos. Eastwood arroga-se a figura do guardião dos valores neste filme numa chave de humor: ele adapta a história real do nonagenário que servia de mula para um cartel do narcotráfico pelas estradas dos EUA e a partir dela tece comentários "de velhinho" sobre questões geracionais, sobre tecnologia, política. O personagem Earl Stone é menos o Clint bronco de Gran Torino, tendo que lidar com os novos imigrantes americanos a contragosto, e mais um Clint bonachão-ranzinza, como teria feito um Walter Matthau.

A figura do ator aos 88 anos é obviamente hipnotizante, porque à mística do galã Eastwood (aqui visto com uma leveza rara, com um ar de dever cumprido, um galã plenamente aposentado em ação) soma-se a contraditória imagem de um homem forte e ao mesmo tempo curvado e já frágil. Essa contradição não foge ao Eastwood diretor e A Mula funciona muito bem porque o velho Earl Stone está sempre no centro dos quadros, em movimento, dançando, desnudando-se (literalmente) e finalmente machucando-se - a vulnerabilidade em cores, em imagem.

Para um ator que se fez nos faroestes de gestos contidos, com os braços escondidos debaixo do poncho, este Eastwood de A Mula, cavalgando sua picape pelo Meio-Oeste, é espantosamente atlético e expansivo, certeiro no timing das gags físicas (Earl andando de um lado para o outro, cumprimentando os mexicanos) e pantomímico na medida nas reações faciais (a cara dele sempre que vê um envelope novo de dinheiro). É um filme de ator, portanto, e altamente testamental nesse sentido, e isso diferencia A Mula dos outros filmes discursivos de Eastwood sobre moral e hombridade.

O parentesco existe, porém, e é possível notar a reafirmação de um pensamento político na obra do cineasta. Há uma relação forte com Um Mundo Perfeito, na medida em que A Mula melancolicamente também faz, na opção pelo road movie de escapada, uma radiografia dos EUA a partir do fosso que separa o mundo real (famílias partidas, relações econômicas precárias, injustiça social) e o mundo da lei.

Que Eastwood tire um sarro da polícia no filme (inclusive com comentários irônicos sobre violência policial, pauta do dia) diz muito sobre o tom mais leve de A Mula, mas no geral o discurso está alinhado com seu pensamento republicano há décadas: o senso do certo e do errado é responsabilidade do indivíduo, e frequentemente paga-se com a vida o preço dessa responsabilidade. À lei, ao sistema, sobram apenas seu caráter espetaculoso (o cerco em Um Mundo Perfeito, a perseguição em A Mula) e sua fria eficiência (o sniper no filme de 1993, o carreirismo e a obsessão midiática do DEA em A Mula).

Nota do Crítico
Ótimo