Filmes

Crítica

A Morte Te Dá Parabéns - Crítica

Mistura improvável de Feitiço do Tempo e Pânico, filme acerta ao ressuscitar fórmula de terror divertido dos anos 2000

Rafael Gonzaga
10.10.2017
19h00
Atualizada em
10.10.2017
20h02
Atualizada em 10.10.2017 às 20h02

Mostrar uma pessoa presa no tempo, revivendo as mesmas 24 horas dia após dia não é algo exatamente inédito no cinema - já foi visto desde o genial Feitiço do Tempo, com Bill Murray, até o drama de guerra No Limite do Amanhã. Mostrar jovens fugindo desesperadamente de um assassino implacável também não é uma novidade - a lista do subgênero, conhecido como slasher movies, vai desde o icônico Sexta-Feira 13 até o tão icônico quanto Pânico. O mérito de A Morte Te Dá Parabéns está em conseguir misturar as duas coisas sem a arrogância de se levar mais a sério do que o necessário, entregando, assim, um filme de terror essencialmente divertido, do tipo que se tornou raro desde o fim da ótima safra entre o fim dos anos 1990 e a primeira metade dos anos 2000.

No novo filme dirigido por Christopher Landon, uma jovem universitária chamada Tree (Jessica Rothe) morre de uma forma assustadora - o filme brinca com diversos clichês dos filmes de terror de forma espontânea - e acorda novamente na manhã do dia em que morreu. Em um primeiro momento, ela pensa estar vivendo um grande déjà-vu, mas logo percebe que as coisas são mais sérias, embarcando em uma jornada para descobrir a identidade do assassino e conseguir, assim, se libertar desse fluxo de repetições. Ainda que a trama não exija muito esforço intelectual para ser entendida, o roteiro emprega bem artifícios para distrair o espectador do foco e gerar a sensação de elemento surpresa. Sem muito esforço, A Morte Te Dá Parabéns faz um bom trabalho nesse sentido.

Landon tem experiência em reviver das cinzas cenários cinematográficos do terror - ele fez a mesma coisa ao trabalhar o found footage popularizado por A Bruxa de Blair em três longas da franquia Atividade Paranormal. Há um mérito também do produtor Jason Blum, fundador da Blumhouse Productions, que de forma notável se mostra disposto a apostar em experimentações no gênero de filmes. A produtora é responsável por sucessos como Corra! e vários outros filmes de terror, como Ouija e sua continuação Ouija: Origem Do Mal, O Presente e os três longas da franquia Sobrenatural.

Um tendência que se tornou regra nos últimos anos é a de que para fazer humor em filmes de terror é preciso apelar para situações escatológicas: a graça precisa vir de litros de sangue esguichando, de tripas pulando para fora de corpos e situações gore que testam o estômago de quem está assistindo. A Morte Te Dá Parabéns surpreendentemente foge desse tipo de lugar comum, investindo muito mais na sonoplastia exagerada e em clichês baseados em técnicas de iluminação para dar sustos divertidos no espectador. A comédia vem muito também da dinâmica de redenção de de Tree, que começa o longa sendo algo próximo da Regina George de Meninas Malvadas e vai se tornando uma pessoa melhor com as adversidades.

É claro, algumas coisinhas poderiam ter recebido um acabamento melhor. Por exemplo: há um momento em que a protagonista descobre que, de alguma forma, as sucessivas mortes afetam sua saúde. Isso acaba ficando meio perdido na trama, já que em dada hora a informação soa como algo importante e em seguida parece ser absolutamente ignorado - a única função disso é mostrar para Tree que, ao contrário do que ela pensava, não há todo o tempo do mundo para resolver sua situação. Outra coisa que fica mal trabalhada é que o filme abre mão de introduzir um elemento que justifique entrada da jovem nesse ciclo de repetições, deixando o evento incomum como obra do acaso.

É bom ver um filme de terror inocente, sem pretensões infrutíferas de inaugurar uma nova era do gênero, voltando às telas do cinema. Geralmente, filmes que aceitam a missão de fazer uma miscelânea de gêneros muito distantes acabam ficando uma bagunça - nesse caso de A Morte Te Dá Parabéns, há a trama universitária norte-americana, o terror dos slasher movies e a comédia inocente de Feitiço do Tempo. O novo longa de Landon, ao contrário, realiza essa mistura de forma organizada e despretensiosa, fazendo o espectador relembrar que é possível dar boas risadas em longas de terror e sair leve da sala do cinema mesmo após ver uma jovem inocente morrendo das mais diversas maneiras.

Nota do Crítico
Ótimo