A Morte Não Tem Dono usa o horror gótico para falar de destino social
Filme venezuelano com Asia Argento tem imagens ricas em referência e significado
Créditos da imagem: Asia Argento em A Morte Não Tem Dono (Reprodução)
“Olhe para você, com essa bota e esse chapéu. Só te falta o chicote!”. As palavras cortantes da chefe de polícia de uma cidadezinha no interior da Venezuela, direcionadas à herdeira italiana (Asia Argento) de uma plantação de cacau local, resumem bem o conflito e as evocações de A Morte Não Tem Dono. O longa de Jorge Thielen Armand – uma das raras produções venezuelanas a ganhar projeção internacional, em parte por sua estrela europeia e por sua exibição no Festival de Cannes – revela um cinema politicamente desenvolto, mas também bem versado nas referências e códigos de gênero.
Isso porque A Morte Não Tem Dono é, acima de tudo, um filme de horror. Nos primeiros minutos da metragem, durante os quais a protagonista chega à Venezuela e à mansão mal cuidada do pai recém-falecido, encontrando por lá uma doméstica (Dogreika Tovar) que parece ter se apossado da propriedade, o clima é de noir tropical. As gaitas e sopros lânguidos da trilha (assinada por Vittorio Giampietro) remetem ao jazz esfumaçado que dominava os grandes filmes do gênero nos anos 1930 e 1940, enquanto a fotografia de contrastes severos (por Luis Armando Arteaga) busca por uma versão mais selvagem do chiaroscuro urbano dos noir clássicos.
Mas conforme o cenário da mansão, e da fazenda ao seu redor, ganha centralidade na trama, o diretor Armand muda marcha com habilidade para o horror gótico. O designer de produção Matías Tikas complementa os arredores já meio assombrados da locação, com suas janelas de madeira apodrecidas e arcos de pedra cheios de arabescos, com uma decoração apropriadamente decadente, empoeirada, dispersa. Um cenário de abandono vai se formando, e o espectador aos poucos começa a esperar que um fantasma pálido de alguma dama desafortunada da Europa renascentista apareça em cada cômodo.
De certa forma, é claro, a própria protagonista é o tal fantasma. A hostilidade dos locais com a personagem de Argento, que passa o filme com uma cara de enjoo irritantemente adequada, vem antes de qualquer coisa do passado violento que ela, como estrangeira dona de propriedade, representa. Clamando seu direito a uma terra que, o filme deixa dolorosamente claro, foi roubada de seus donos ancestrais, ela personifica um processo colonial que o povo venezuelano acredita ter superado. “Só te falta o chicote”, etc e tal.
A Morte Não Tem Dono é uma história sobre como esse passado continua assombrando o solo onde ocorreu, através de processos concretos – de herança, por exemplo – fundados na tradição ocidental eurocentrista. É também sobre a reação violenta do povo que sofre com esse encosto persistente, e sobre as formas de quebrar o ciclo histórico estabelecido por ele. Jorge Thielen Armand, como vários outros autores de gênero antes dele, usa o horror como veículo para quebrar o jugo cruel do destino social, e pavimentar um caminho alternativo por onde é possível transformá-lo.
Rico em imagens e em significado, A Morte Não Tem Dono é uma rara chance de espiar um cinema vital, em convulsão, cheio de ideias excitantes para explorar. A esperança é que mais filmes como ele cheguem até nós.
*A Morte Não Tem Dono foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ainda não há previsão de estreia para o filme no circuito comercial brasileiro.
A Morte Não Tem Dono
La muerte no tiene dueño
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