A Morte do Demônio: Em Chamas brilha nos casos de família
Novo derivado da franquia de horror é uma prova frenética de resistência
Créditos da imagem: Warner Bros./Divulgação
Por mais que o terror americano, como um todo, viva hoje um momento de pulsão criativa, Evil Dead parece habitar uma realidade própria em matéria de vigor. Cada novo filme sobe um pouco o tom do registro, desde que Fede Álvarez aplicou o reboot em A Morte do Demônio em 2013. Este novo A Morte do Demônio: Em Chamas (Evil Dead Burn) é ainda mais acrobático e virulento que A Morte do Demônio: A Ascensão, de 2023.
Mudam os diretores mas a missão permanece: reeditar o misto de slasher movie e terror de possessão num ambiente fechado, com foco na variedade de empalamentos; lacerar, praguejar, esquartejar, levantar, repetir tudo de novo. Assim como Lee Cronin em A Ascensão, o diretor Sébastien Vanicek trabalha em Burn com um orçamento na casa dos US$15-20 milhões e a liberdade de testar à vontade a tolerância do espectador ao choque.
O baixo custo, a liberdade e o vigor em parte se explicam pela logística desses Evil Dead, que são produzidos na Nova Zelândia. É uma escolha que começou quando o produtor Rob Tapert rodou a série de TV de Xena no país nos anos 1990 (Tapert mora na Nova Zelândia até hoje com a atriz Lucy Lawless, com quem é casado) e se consolidou desde que a série de TV Ash vs Evil Dead foi rodada no país. Da mesma forma que Peter Jackson começou no cinema de horror, Evil Dead e outros filmes americanos do gênero encontram hoje entre os kiwis uma predileção para o gore.
A indústria local reclama que isso significa emprego para técnicos e nunca para atores e atrizes do país, mas esse não é o caso de Burn. Metade do elenco principal é neozelandês; Tandi Wright, que interpreta Susan, a sogra da protagonista Alice (Souheila Yacoub, cujo histórico de ginasta vem bem a calhar), é uma das mais conhecidas atrizes da TV neozelandesa. Isso acaba emprestando às dinâmicas de personagens um frescor e uma insuspeita carga dramática, que logo de cara diferenciam este A Morte do Demônio: Em Chamas.
Alice já começa o filme como uma sobrevivente. Durante o aniversário do seu cunhado Joseph (Hunter Doohan) num clube noturno, descobrimos que o casamento dela com William (o australiano George Pullar) é definido pelo abuso verbal e físico. O castigo vem a galope com a centena de cavalos de potência do carro de William, que na saída da boate acerta em cheio uma das deadites típicas de Evil Dead, desencadeando a corrente frenética de possessões que marcam os filmes da série.
A violência doméstica virou um tema recorrente do terror americano na última década para dar ao velho tropo da final girl um ar de autoralidade e propósito. Em Burn, o tema não domina o filme, pelo simples fato de ser apenas um dos muitos ingredientes misturados para fins de impacto. Há horror gótico nos ambientes e na fotografia, uma escalada de ameaças que lembra O Exterminador do Futuro e uma disposição para a farsa nas cenas dramáticas que acaba dando ao pacote todo uma certa unidade e uma cara despudorada de pastiche.
São apenas quatro ou cinco cenários ao longo de quase duas horas de filme, uma proporção que exige que Vanicek mantenha o gás sempre em alta nas cenas isoladamente. Para isso, o diretor saca um arsenal inesgotável de piruetas de câmera, acelerando o tempo dos planos para ditar ritmo e impacto. À exceção de alguns planos longos projetados como momentos de virtuose ou ojeriza (Alice fugindo na sala em plano-sequência; o beijo na janela), Burn é um filme bastante picado na ação. A ordem parece ser desorientar para convencer.
Pela própria repetição, o efeito perde vigor ao longo do filme, o que fica mais evidente quando Burn descansa para dar sua exposição, uma backstory bastante conveniente escrita para engrossar a mitologia em torno do Necronomicon, o Livro dos Mortos. O texto de A Morte do Demônio: Em Chamas funciona melhor na fúria do que na explicação. Toda a cena na casa funerária e depois o momento na mesa de jantar parecem saídos de Festa de Família (1998); a velocidade do diálogo e as grandes-angulares de Vanicek tornam toda a experiência uma celebração da crueldade e um teste do insustentável.
As trocas de ofensas e acusações da família são o que este Evil Dead tem de mais específico e, por que não, virulento. Em seguida, quando o filme volta a ser um pega-pega de pantomima entre demônios e sobreviventes, ao qual o espectador pode responder com graus variados de indiferença, isso soa até como um alívio.
A Morte do Demônio: Em Chamas
Evil Dead Burn
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