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Crítica

A Morte de Stalin | Crítica

Filme injeta humor ácido na história da União Soviética e crítica todos os regimes políticos no caminho

Camila Sousa
06.06.2018
22h36
Atualizada em
07.06.2018
19h02
Atualizada em 07.06.2018 às 19h02

Fazer uma comédia sobre um regime totalitário é uma tarefa complexa. Exatamente por isso que a A Morte de Stalin, dirigido por Armando Iannucci (Veep), mostra em seus primeiros minutos como pretende conduzir essa história: a ideia aqui é mostrar temas pesados (como execuções solicitadas por Stalin) com piadas de gosto agridoce, que fazem o público se questionar se realmente deveria estar rindo daquilo.

O longa é baseado na HQ homônima de Fabien Nury e Thierry Robin, e mostra o que acontece nos bastidores da União Soviética imediatamente após a morte de Josef Stalin, em 5 de março de 1953. Após a descoberta do corpo, o comitê de Stalin se reúne e começa a discutir como será o futuro do país depois daquilo. Mas enquanto são feitos os preparativos para um grande funeral, Beria (Simon Russell Beale), Malenkov (Jeffrey Tambor), Nikita (Steve Buscemi) e Molotov (Michael Palin) estão preocupados realmente com quem vai “assumir” o lugar de Stalin e o que cada um deles pode ganhar com aquilo: de poder, à libertação de presos políticos do antigo comandante, entre outras coisas.

O tom cômico da história fica realmente interessante porque toda essa disputa precisa ser feita nas entrelinhas: politicamente é um momento delicado, e ninguém quer arriscar a vida ou perder os privilégios que já tem. Além disso, todos os membros do comitê são extremamente despreparados para o que está acontecendo. Há vários momentos em que nenhum deles sabe exatamente o que fazer e a realidade dessa incompetência é muito engraçada. Claro, tudo só é possível pela interação do elenco principal. Beale, Tambor, Palin e, principalmente, Buscemi, estão totalmente à vontade com seus personagens e é perceptível que cada um deles estudou nuances, olhares, movimento das mãos, formas de andar, etc.

Escrito a quatro mãos, incluindo o diretor e o criador da HQ, o roteiro de A Morte de Stalin aposta em piadas extremamente rápidas, que pedem uma boa atenção do público para acompanhar tudo o que está acontecendo. A recompensa são momentos ácidos que estão ali para criticar a União Soviética, mas no fim das contas servem para falar dos problemas de todos os regimes políticos: o desejo de tirar vantagem de tudo, o individualismo e a completa falta de preocupação com o povo. Para aqueles que estão no poder, os problemas da população são só uma forma de conseguir ou não mais popularidade.

Porém, embora esse humor seja muito bom e muito bem feito no filme, ele fica desgastado no terceiro ato. Depois de mais de 1h nessa maratona de ironias e confusões, o público já entendeu o quão despreparados os líderes são e há uma sensação de que o filme deveria evoluir e concluir sua mensagem. Mas o deboche final de A Morte de Stalin é que não há um ensinamento positivo ou negativo sobre o que aconteceu. Stalin morreu e foi substituído por alguém com ânsia de poder, que depois foi substituído de novo e isso continua até os dias de hoje, seja na Rússia ou nos Estados Unidos.

A Morte de Stalin
The Death of Stalin

Ano: 2017

Classificação: 16 anos

Duração: 108 min

Direção: Armando Iannucci

Roteiro: David Schneider, Armando Iannucci

Elenco: Dan Mersh, Eva Sayer, Ewan Bailey, Nicholas Sidi, Jonathan Phillips, Paul Ready, Roger Ashton-Griffiths, Nicholas Woodeson, Sylvestra Le Touzel, Karl Johnson, Diana Quick, Richard Brake, Tom Brooke, Dermot Crowley, Jason Isaacs, Steve Buscemi, Simon Russell Beale, Paddy Considine, Rupert Friend, Jason Isaacs, Olga Kurylenko, Michael Palin, Andrea Riseborough, Paul Whitehouse, Jeffrey Tambor, Adrian McLoughlin, Cara Horgan, Jonathan Aris, Gerald Lepkowski, Justin Edwards, Paul Chahidi, June Watson, Daniel Tuite, Adam Shaw

Nota do Crítico
Ótimo