A Maldição da Freira

Filmes

Crítica

A Maldição da Freira

Terror irlandês acerta na atmosfera tensa de convento amaldiçoado, mas repete todos os clichês possíveis dos found footage

Arthur Eloi
06.03.2019
19h32

Desde o fim dos anos 1990, o found footage - característico por filmagens em primeira pessoa, com os personagens interagindo com a câmera - se estabeleceu como um dos subgêneros do terror moderno que ficou rapidamente saturado, graças a títulos fracos que pegam emprestados os clichês de câmeras tremidas, mas sem o mesmo impacto de algo como A Bruxa de Blair (1999) ou REC (2007). A Maldição da Freira (2018) parece ser mais um desses casos a primeira vista, mas o filme irlandês esconde algumas surpresas agradáveis.

A trama acompanha dois padres que são enviados pelo Vaticano à um convento no interior da Irlanda para investigar o bizarro caso de estátuas chorando sangue em 1960. Com câmeras em mãos, eles inicialmente documentam o ocorrido, mas, eventualmente, esbarram em uma série de abusos e segredos perversos. A ambientação é o elemento mais forte do longa: desde o início, o cenário é opressivo e tenebroso. Isso é reforçado pela narrativa, que desperta a curiosidade do espectador com um gancho forte, e então dá sequência com coisas cada vez mais horripilantes, como o comando impiedoso de uma agressiva freira, casos ocultos de rituais satânicos, possessões demoníacas e lobotomia.

Para explorar essa desventura, o filme usa uma abordagem documental que funciona muito bem na premissa - afinal, os padres precisam registrar tudo de perturbador que ocorre - e também na estética, já que permite planos mais bem trabalhados, que fogem da câmera-tremida-na-mão que define, e também limita, o gênero. Há um verdadeiro carinho pela fotografia, atmosfera e pelo visual, e é isso que ajuda A Maldição da Freira a se destacar entre os demais found footage.

Infelizmente o longa não é consistente nessa experimentação, frequentemente caindo nos mesmos clichês que atormentam produções do tipo. Enquanto toda a tensão é construída com sutileza, os momentos mais agitados se traduzem em vultos passando na tela tremida e gritos do operador de câmera. Isso não significa que não há bons sustos - o padre John (Ciaran Flynn) sendo atormentado por crianças fantasmas é um dos momentos que funciona - mas, no geral, o filme torna-se previsível na hora de partir para abordagens mais agressivas. Investir em clichês é o seu maior problema, não só na linguagem como também na temática. Os mistérios do convento são fonte para muitos conflitos, mas a trama decide focar-se na crise de fé do Padre Thomas (Lalor Roddy), resgatando no processo uma infinidade de elementos de contos de possessão popularizados por O Exorcista - incluindo até mesmo o icônico mantra de "O poder de Cristo te obriga!" durante o confronto com o demônio.

A Maldição da Freira nem de longe é um filme ruim, mas sim um dividido: metade quer ser livre para contar a sua própria história, enquanto a outra se mantém na zona de conforto como medo de não entregar algo mastigável ao grande público - algo que fica claro até na escolha do título nacional, que recorre ao mais seguro e de fácil entendimento. O longa tem momentos o bastante para brilhar e não decepcionar, mas também não escapa do sentimento de que poderia ser mais.

Nota do Crítico
Bom