A Juíza

Créditos da imagem: A Juíza/CNN Films/Reprodução

Filmes

Crítica

A Juíza

Documentário sobre Ruth Bader Ginsburg inspira mais do que filme hollywoodiano

Marcelo Forlani
23.05.2019
19h23
Atualizada em
24.05.2019
11h33
Atualizada em 24.05.2019 às 11h33

Há alguns meses, na época em que os filmes de Oscar começavam a pipocar nas telas, um trailer chamava atenção: Suprema (On the Basis of Sex, 2018), com Felicity Jones interpretando uma jovem Ruth Bader Ginsburg. Na cinebiografia, conhecemos a protagonista antes dos seus 20 anos, antes de se tornar advogada, quando frequentava a prestigiosa faculdade de Harvard, enquanto ajudava o marido doente a também completar seu curso de direito na mesma universidade e cuidava da filha, Jane. Em uma das cenas mais emblemáticas do longa, o reitor pergunta às poucas mulheres do curso por que elas achavam que deveriam estar ali, ocupando o lugar que deveria ser de um homem - questionamento considerado normal nos anos 1960 (e 70, 80, 90 e até poucos dias atrás).

O documentário A Juíza (RBG, 2018), dirigido por Betsy Weste e Julie Cohen, exibido pela primeira vez no Festival de Sundance 2018 e que chega agora ao Brasil pela Flow com exibições grauitas, remonta a carreira de RBG sem a glamourização do filme hollywoodiano, mas com muitos méritos. Não à toa, recebeu duas indicações no Oscar 2019 (Melhor Documentário e Melhor Canção Original - "I'll Fight"), o que a versão ficcional não conseguiu.

As duas diretoras conseguiram entender a série de mudanças recentes, antes do #MeToo e das atuais lutas feministas, e acertam ao mostrar RBG, como é conhecida, trabalhando pelo fim da desigualdade de gênero desde o início de sua carreira. Foi ela, como advogada, que enfrentou a Suprema Corte de seu país por seis vezes e conseguiu vencer em cinco delas, mostrando como há uma injustiça histórica e discriminatória contra mulheres, impedidas de ocupar certos cargos, fazer certos trabalhos e de receber salários iguais aos de homens que fazem exatamente o mesmo tipo de serviço.

O filme remonta as defesas de RBG na Suprema Corte usando o áudio original e suas palavras aparecendo na tela, aumentando ainda mais sua força. Seguindo os ensinamentos de sua mãe, ela não retrucava as provocações com raiva, pois isso poderia jogar contra suas argumentações. Ao contrário, ela ensinava aos homens que estavam no poder que havia, sim, muita injustiça no mundo. E ainda há, por isso continua seu trabalho até hoje, com 86 anos.

Sem esquecer da família, o documentário não se cansa de exaltar a parceria com o marido Martin Ginsburg (1954–2010), além dos dois filhos do casal e a neta Clara. RBG é descrita por seus filhos como dura, rígida, mas nunca injusta. O documentário conta com depoimentos de amigas de infância, pessoas que trabalharam e foram defendidas por ela. Um dos entrevistados é o ex-presidente Bill Clinton, que a indicou ao cargo de Juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos - apenas a segunda mulher a alcançar o cargo.

Entre casos, histórias e depoimentos, o documentário reforça a importância da luta da Juíza, que alcançou recentemente o status de rainha das Redes Sociais, quando os Millenials começaram a pinçar alguns de seus discursos e usar em cartazes, camisetas e canecas, rebatizando-a de "Notorious RBG" (em referência ao rapper Notorious B.I.G., com quem a própria RBG diz, numa cena hilária, ver muitas semelhanças). Mais do que um meme, RBG é inspiração para um mundo melhor.

Nota do Crítico
Ótimo