Com excelente visual, A Ilha Esquecida prova que boas histórias sempre ficam na memória
Longa é dos mesmos diretores de Gato de Botas 2: O Último Pedido
Toda vez que grandes estúdios de animação anunciam um novo projeto, o público é imediatamente tomado por uma inevitável onda de expectativas. No caso da DreamWorks, essa exigência atingiu um novo patamar após sucessos como Gato de Botas 2: O Último Pedido e Os Caras Malvados. Essas produções elevaram o sarrafo ao combinar narrativas envolventes com estilos visuais inovadores que revitalizaram o gênero. Com espectadores cada vez mais criteriosos em relação às obras que escolhem abraçar, a pressão sobre os lançamentos do estúdio é inegável. Contudo, para a alegria dos fãs, é possível afirmar com segurança: A Ilha Esquecida atende perfeitamente a todas essas expectativas — e ainda vai um pouco além.
Ambientada nas Filipinas, a trama acompanha Jo (com a voz de H.E.R.) e Raissa (Liza Soberano), amigas inseparáveis que enfrentam o temido fim do ensino médio. Enquanto Raissa já tem o futuro traçado rumo à faculdade, Jo sente-se completamente perdida e lida com a partida de sua amada avó – sua “Lola”. Alimentadas por anos pelas histórias da senhora sobre a mítica Ilha de Nakali, as meninas juraram um dia encontrá-la. A promessa se cumpre de forma inesperada quando ambas acordam no local mágico, mas sem qualquer lembrança de como chegaram lá. A partir daí, a narrativa engata em uma aventura fascinante: ao tentarem recuperar suas memórias e o amuleto que as transportou, a dupla esbarra em um mistério muito maior e perigoso.
A primeira característica que captura o olhar logo nos minutos iniciais do longa é o estilo de animação. Os diretores Joel Crawford e Januel Mercado (a mesma dupla por trás do excelente Gato de Botas 2) já haviam adiantado em entrevista ao Omelete, que a intenção da equipe era abraçar a extravagância total na concepção desse universo. Muito antes de Jo e Raissa pisarem na Ilha de Nakali, a representação da cidade natal delas – e da cultura Filipina num geral – já apostava em cores vibrantes e um traço deliciosamente exagerado, com muitas referências aos animes japoneses. A estética se apoia em feições e reações expressivas, conduzidas de forma dinâmica e visualmente ágeis.
Contudo, é no momento em que as protagonistas pisam na ilha que a direção de arte realmente mostra a que veio. Nesse novo cenário, tudo é elevado à máxima potência: as paletas ganham ainda mais vida, as formas assumem contornos inventivos e a escala se torna colossal – até mesmo para galinhas. É como se as personagens encontrassem um ambiente à altura de suas personalidades caóticas. Ver essa vertente estilizada de animação ganhar cada vez mais tração na indústria é, de certa forma, um alívio, ainda mais quando bem aplicada e acompanhada de um bom roteiro como acontece aqui.
Outro enorme acerto do longa é a construção do carismático núcleo de apoio. Durante a jornada, Jo e Raissa são acompanhadas por um trio improvável de criaturas: Bungi (Manny Jacinto), um bebê demônio que ama a mãe; Raw (Dave Franco), um transmorfo que transita entre homem e cachorro; e um Príncipe Sereio tão vaidoso que ostenta o rosto digno da mais (im)perfeita harmonização facial. A dinâmica das criaturas com a dupla principal flui com uma naturalidade invejável, provando que não estão alí apenas como piadas descartáveis, mas como forças vitais da trama.
Esse cuidado minucioso se estende a toda a ambientação da ilha, que ganha vida através de sua fauna delirante. Em vez de espalhar criaturas aleatórias pelo cenário apenas por apelo visual, os roteiristas criaram um ecossistema caótico onde tudo faz sentido dentro de suas próprias regras mágicas. Seja através dos pequenos guerreiros cogumelos – que odeiam ser chamados de “fofos”–, na doce e misteriosa Batiba (Jenny Slate) ou na interação com árvores gigantes incrivelmente dóceis, cada habitante enriquece Nakali e a jornada das protagonistas.
Também é preciso destacar a vilã Manananggal, uma criatura inspirada na mitologia filipina que consegue dividir o próprio corpo em duas partes. É revigorante ver uma animação recente apostar em uma ameaça genuinamente intimidadora. O design macabro da personagem já impressiona por si só, mas é a forma como o roteiro constrói sua presença do início até quase o clímax que instiga um perigo real, elevando ainda mais o risco da história.
O longa derrapa levemente no ritmo em algumas sequências. Há momentos em que a tela fica tão sobrecarregada de acontecimentos e informações simultâneas que falta um espaço para a própria narrativa respirar. Principalmente quando novos locais da ilha são introduzidos. No entanto, é fácil relevar esse tropeço quando se nota que a obra tem total consciência de si mesma. É uma animação que se permite viver intensamente todas as loucuras e exageros que o formato oferece.
A grande palavra-chave da história é, inegavelmente, memória. O filme traz uma reflexão muito madura e sensível sobre como as pessoas são, no fim das contas, a soma das lembranças que guardam de si mesmas e daquelas construídas ao lado de quem amam. É uma animação que apresenta um bom desenvolvimento emocional das protagonistas, fazendo com que a química delas seja o motor principal da narrativa e que deixe o espectador querendo ver onde o filme vai chegar.
A Ilha Esquecida consolida-se como mais uma prova da habilidade da DreamWorks em lapidar grandes narrativas enquanto reverencia, com respeito e criatividade, diferentes bagagens culturais – aqui, celebrando de forma belíssima a riqueza da cultura Filipina. Seja pela trilha sonora meticulosamente pensada para fisgar qualquer bom apreciador da boa música dos anos 90, ou pelos surpreendentes plot twists de alguns personagens, o longa deixa uma mensagem poética e certeira: assim como o ser humano é moldado por aquilo que vive, grandes aventuras provam que boas histórias ficam, para sempre, guardadas na memória.
A Ilha Esquecida
Forgotten Island
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