Cena de A Fera do Mar (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de A Fera do Mar (Reprodução)

Filmes

Crítica

A Fera do Mar é derivativo, mas enche os olhos e não ofende a inteligência

Animação da Netflix tem grandes ideias visuais, mas poucas ideias narrativas

Omelete
4 min de leitura
21.07.2022, às 11H27

Você já viu A Fera do Mar antes - provavelmente, quando ele ainda se chamava Como Treinar o Seu Dragão. É impossível afastar a sensação de déjà vu aqui, porque o roteiro de Chris Williams (Moana) e Nell Benjamin (dos musicais de Meninas Malvadas e Legalmente Loira) faz pouco mais do que transportar a história da franquia criada por Dean DeBlois dos céus para os mares: um jovem protagonista, subestimado por todos ao seu redor, invade uma cultura baseada na violência entre humanos e algum tipo de criatura (dragões ou monstros marinhos, qual é a diferença mesmo?), faz amizade com um dos bichos e acaba descobrindo que essa selvageria não é nem um pouco necessária.

Em defesa de Williams e Benjamin, A Fera do Mar é até mais cortante em sua crítica à forma como as autoridades e instituições usam a guerra e a violência como instrumentos de dominação e acúmulo de poder. Ao invés de uma cultura arraigada de animosidade, desconstruída pelo poder da amizade, o que a pequena Maisie (voz de Zaris-Angel Hator, no original em inglês) desafia aqui é mais específico: uma monarquia que mentiu deliberadamente sobre a história do seu reino e enriqueceu obscenamente com a guerra manufaturada que incluiu nessa narrativa histórica.

O filme nos diz, com alguma razão, que a forma de desmontar um sistema abusivo como este, e o ciclo de violência interminável em que ele prospera, é confrontá-lo com a verdade. Desempoderar os poderosos que perpetuam esse abuso só é possível se você convencer os não-poderosos que eles usam como soldados rasos em sua guerra a simplesmente pararem de atirar. É claro que na realidade não é tão fácil assim - poucas vezes o ato de proferir um discurso enfurecido, como o de Maisie no clímax de A Fera do Mar, convenceu algum exército a recuar de uma batalha. Mas este é um filme da Netflix, não a realidade.

O ponto é que seria fácil perdoar A Fera do Mar por seu idealismo, mas é um pouco mais difícil superar o quão derivativa é sua premissa, e o quão insatisfatório ele é como narrativa, principalmente em seu terceiro ato. O pecado capital do filme é construir um universo náutico rico e tremendamente específico, cheio de detalhes fascinantes, e simplesmente escolher não explorá-lo. Por exemplo: uma barganha sinistra realizada pelo Capitão Crow (Jared Harris) acaba nunca cobrando seu preço, e as empolgantes possibilidades de uma ilha toda povoada pelos monstros marinhos do filme são minadas apenas para uma sequência rápida de ação.

Da forma como foi estruturado, A Fera do Mar é quase uma história episódica. A cada virada de ato, ele se transforma em um filme diferente, em muitos sentidos um questionamento do filme que veio antes - de aventura de piratas a história de amadurecimento, daí para trama juvenil no estilo “menino-e-seu-cachorro”, e por fim épico político. Formato admirável, talvez, na dimensão retórica que a trama toma, mas igualmente frustrante por não prover conclusões, arcos de personagem desenhados de maneira mais decisiva. Uma pena, também, porque o filme é um verdadeiro banquete visual.

Poucas vezes na animação hollywoodiana a água pareceu tão correta, e tão bonita, reagente aos relâmpagos que explodem no céu e maleável às perturbações do alto-mar. Ainda menos vezes o natural irrealismo do formato foi usado tão criteriosamente: os designs de personagem se equilibram de maneira precisa entre o crível e o caricaturesco; as cores são usadas de forma audaz (este é um filme tropical, banhado ao Sol, cheio de vermelhos, amarelos e azuis vivos), mas contidas em objetos e criaturas cuja textura é palpável, trabalhada nos mínimos detalhes.

Este é, enfim, claramente um projeto passional para o também diretor Chris Williams - ele deixou o rol de animadores da Disney, após anos resignado à posição de co-diretor, para conseguir bancar o seu primeiro projeto solo. O homem certamente tem talento para a mídia que escolheu, e vontade de sobra de criar algo verdadeiramente extraordinário dentro dela. Essa tal obra-prima talvez tenha que esperar um pouquinho, mas A Fera do Mar mostra que ele está no caminho certo.

A Fera do Mar
The Sea Beast
A Fera do Mar
The Sea Beast

Ano: 2022

País: EUA

Duração: 115 min

Direção: Chris Williams

Roteiro: Nell Benjamin, Chris Williams

Elenco: Jared Harris, Marianne Jean-Baptiste, Karl Urban, Jim Carter, Dan Stevens

Nota do Crítico
Bom

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