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Crítica

A Favorita

Yorgos Lanthimos cria sátira espirituosa sobre a realeza e suas inseguranças

Camila Sousa
23.10.2018
16h05

É satisfatório ver Yorgos Lanthimos fazer uma sátira sobre a realeza. Depois de se destacar por longas como O Lagosta (2015) e O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017), o diretor usa todo o seu cinismo em A Favorita para mostrar um elaborado jogo de xadrez entre três mulheres na Inglaterra do século 18.

Foto de A Favorita
A Favorita/Fox/Divulgação

O filme acompanha a rainha Anne (Olivia Colman), que tem em Lady Sarah (Rachel Weisz) sua grande amiga e confidente. As duas se conhecem desde a infância e Sarah usa a amizade para influenciar decisões importantes do país. Não que isso seja necessariamente ruim - afinal nem sempre Anne faz as melhores escolhas para a nação, mas mostra como a amiga foi perspicaz e aprendeu a usar a relação para atingir seus objetivos. Esse cenário muda com a chegada de Abigail (Emma Stone), uma prima distante de Sarah que busca emprego no castelo. Apesar de ser igualmente esperta, ela carrega um ar jovial que encanta Anne e desperta ciúmes profundos em Sarah. O que acontece a partir daí é uma sucessão de momentos absurdos envolvendo o trio.

A força feminina é destaque em meio a esse caos. A grande representante disso é Sarah, que demonstra uma maturidade resultante da dor. Até mesmo em suas derrotas, a lady mostra que é resistente e não precisa chorar para demonstrar suas emoções. No caso de Emma Stone, o deleite é observar a mudança de Abigail. Embora já tivesse suas ambições, a jovem se envolve em intrigas que não deveria e aprender a ser – ainda mais – manipuladora.

Mas ainda que a sátira seja o combustível inicial, Lanthimos sabe que isso não segura um longa de quase 2 horas. Então ele cria uma relação entre a rainha e o público. Apesar de agir como uma criança mimada, no fundo Anne é falha como todas as pessoas são. Ela ocupa o cargo de liderança da Inglaterra, mas sua vontade não é tomar decisões difíceis e ser julgada por aqueles que discordam de suas ideias. Ela quer apenas aproveitar as partes boas da realeza, deixando de lado as ruins. Quem nunca desejou só a parte boa da vida? É a partir dessa pergunta que o diretor desenvolve um questionamento ainda maior.

Anne, Abigail e Sarah têm atitudes questionáveis durante a trama, mas tudo é justificado para fazer o público pensar em suas próprias ações. Será que você não faria o mesmo se estivesse no lugar dessas mulheres? Se pudesse ter o mínimo de poder em suas mãos? E tudo isso é coroado por cenas que se estendem até causar incômodo – no espectador e nos personagens.

Os risos nervosos que surgem na plateia durante a projeção de A Favorita só mostram como quem assiste se identifica - ainda que com certa vergonha - com o que está assistido. Ao alcançar esse patamar, Yorgos Lanthimos transforma sua sátira sobre a realeza em uma profunda constatação do quanto todas as pessoas são - de várias maneiras - imperfeitas.

Nota do Crítico
Ótimo