A Estrela que Não É | Crítica
A estrela que não é - Festival do Rio 2006
![]() |
||
|
||
![]() |
||
![]() |
||
![]() |
A estrela que não é (La stella che non cé, 2006), do veterano diretor italiano Gianni Amelio, é uma história comovente com uma mensagem humana e política. Quase todo rodado na China, o longa é uma oportunidade para o público ocidental ter contato com a realidade do país que mais tem crescido economicamente nos últimos anos, mas que ao mesmo tempo apresenta os mesmos problemas de diversas nações do terceiro mundo.
A história começa na Itália, onde uma siderúrgica está sendo vendida para a China. Já no inicio percebemos o comentário político de Gianni. A empresa só pode ser vendida para empresários chineses. Na porta, protestos por parte dos funcionários, que perderam seus empregos. São os males da globalização. Após a conclusão do negócio, Vincenzo Buonovolonta ("boa vontade" na tradução), chefe da manutenção da indústria, se dá conta de que o alto-forno havia causado a morte de um trabalhador. Ele consegue encontrar o comprador e pede para que as máquinas sejam desmontadas devagar, para que possa consertar a peça defeituosa a tempo de ser transportada para a China. Sua maneira pouca educada de explicar o problema é determinante para que a interprete dos chineses perca o emprego. Os chineses não dão muita atenção a Vincenzo e levam as máquinas assim mesmo. Preocupado que o defeito provoque mais vítimas, Vincenzo parte para Xangai com a nova peça. Lá ele sai em busca da interprete e pede a sua ajuda. O relacionamento dos dois no começo não é muito amistoso, mas com o tempo eles desenvolvem uma amizade carinhosa.
O roteiro foi inspirado no livro de Ermanno Rea e escrito por Umberto Contarello e diretor Gianni Amelio. Tendo o relacionamento de duas pessoas com culturas bem diferentes, o cineasta Gianni sustenta sua narrativa nas pequenas cenas que acontecem em nosso dia-a-dia. Ele também aproveita para registrar com extrema perícia uma China desconhecida. Um país que apesar do milagre econômico ainda abriga condições de vida bastante díspares. Percebemos isso durante a busca obsessiva de Vincenzo pela máquina defeituosa. Ele viaja de avião, barco, ônibus e caminhão por cidades e vilarejos, em uma espécie de road movie sentimental de descobertas.
O choque visual é contrastante. De modernas metrópoles a aldeias. Prédios de muitos andares com centenas de apartamentos apinhados de gente. Fica a constatação que as favelas da China são de concreto e cimento, e que isso não significa um ambiente violento. Mesmo com poucos recursos a população divide alimento e tratam o estrangeiro com delicadeza. Percebemos que a doutrina socialista de Mao ainda possui muita força, principalmente no interior. Mas nem tudo é perfeito. Devido a uma lei que controla a quantidade de crianças que uma família pode ter, muitas acabam sendo abandonadas na rua. São cenas chocantes que observamos através do olhar de Vincenzo. E é justamente na fotografia de Luca Bigazzi que percebemos esse olhar estrangeiro. Luca mescla grandes panoramas com registro intimista dos personagens nos mais diversos ambientes e de forma muito sutil.
Encabeçando o elenco temos a interpretação comovente de Sergio Castellitto. Vemos em Vincenzo uma metáfora do homem que está à procura de si mesmo. Não é à toa que Sergio é considerado atualmente o ator mais versátil da Itália. Tai Ling faz de forma contida, mas recheada de emoção, a intérprete Liu Ha, que acompanha o italiano em sua jornada.
O final lírico e poético pode incomodar, mas é coerente. Não podemos consertar tudo na vida, mas isso não impede que tentemos. No atual mundo globalizado, o artesão perdeu a sua função. É muito mais fácil jogar a peça defeituosa fora do que consertá-la. Mas quando esse defeito é de carne e osso, o que devemos fazer?
A Estrela que Não É
La stella che non c’è
Excluir comentário
Confirmar a exclusão do comentário?




Comentários (0)
Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.
Faça login no Omelete e participe dos comentários