A Casa que Jack Construiu

Créditos da imagem: IFC Films/Divulgação

Filmes

Crítica

A Casa que Jack Construiu

Lars von Trier recorre à violência explícita para discutir arte, misoginia e até para fazer piada de si mesmo

Mariana Canhisares
09.11.2018
23h19
Atualizada em
09.11.2018
23h19
Atualizada em 09.11.2018 às 23h19

“Você sabe como é difícil ser homem? Já nascer culpado, enquanto as mulheres são tratadas como vítimas?”. O monólogo de Matt Dillon seria risível, se ele não estivesse com uma faca em mãos e diante de uma mulher amordaçada, marcada à caneta nos pontos de corte. Irônica ou não, a misoginia do discurso, ao lado da violência escancarada, representa bem o novo filme de Lars von Trier, A Casa que Jack Construiu. Acompanhando a jornada de um serial killer arrogante na concepção das suas estimadas “obras-primas”, o diretor novamente opta pela polêmica para discutir o divino e o pecado, a arte e sua própria filmografia.

Seguindo uma estrutura semelhante à de Ninfomaníaca, Von Trier pega emprestado Virgílio, o guia do inferno de Dante, para servir como interlocutor do seu “herói”. Mas, enquanto Joe tentava convencer Seligman de que é uma pecadora, Jack aqui tem outro objetivo: provar que arte e ódio, mais do que o amor, são faces da mesma moeda. Para isso, ele narra cinco de seus assassinatos, como se fosse um curador de um museu, se enveredando em discussões com Virgílio que mais parecem seminários. Os devaneios poderiam se tornar monótonos não fosse a força do discurso imagético que criam - artifício que só se intensifica conforme a produção avança.

Porém, não são as ideias presunçosas do personagem-título que envolvem o espectador . É o humor debochado da sua história que ganha o público. A inexperiência dos primeiros crimes, junto com a obsessão por limpeza de Jack, são as bases para situações cômicas, sabiamente aperfeiçoadas pela montagem e pela direção. Assim, a câmera na mão, uma constante na obra do diretor, mais do que frisar o realismo da violência, serve também como um ingrediente para o mockumentary do início da carreira do serial killer. Quando você menos se dá conta, está rindo de situações grotescas e, em alguma medida, se tornando cúmplice de tudo aquilo.

Ainda que a postura sarcástica torne menos desconfortável presenciar as cenas mais gráficas, é difícil não se questionar sobre a necessidade de algumas delas. Jack é um serial killer perverso, logo é compreensível dedicar momentos para caracterizar o personagem e contextualizar seu sadismo. Porém, em mais de uma ocasião, fica a impressão que Von Trier quer chocar por chocar e é aí que o filme perde.

Não fosse a performance de Matt Dillon, talvez o longa não se recuperasse desses desvios, ou sequer tivesse tanta força. Mais do que cumprir o seu papel, o ator entrega cenas intensas, realmente aterrorizantes, sem cair na caricatura do assassino perverso. Na realidade, ele exprime o ódio pulsante do personagem muitas vezes através de uma simples apatia. Não é exagero: Dillon encarna a misoginia e o espírito de superioridade de Jack, os fios condutores da narrativa, de modo impecável.

Fato é que, nas suas idas e vindas, A Casa que Jack Construiu é uma obra interessante. O retrato das vítimas, na sua maioria mulheres, como burras, irritantes e presas fáceis incomoda e não é pouco. No entanto, há mais por trás de toda a violência e do discurso de ódio. No fundo, a história se trata da impotência do homem diante do seu próprio fracasso. E, embora seja difícil, às vezes é bom encarar o espelho com tanta crueza.

Nota do Crítico
Bom