Filmes

Crítica

22 de Julho

Filme da Netflix traz tragédia norueguesa em embalagem hollywoodiana

Natália Bridi
14.09.2018
10h13
Atualizada em
18.10.2018
18h38
Atualizada em 18.10.2018 às 18h38

Paul Greengrass é conhecido pela qualidade palpável dos seus filmes. Seja na franquia Bourne ou na reconstituição de momentos históricos - como Domingo Sangrento (1972) e Voo United 93 -, o seu cinema é imersivo, capaz de colocar o espectador dentro da ação e também do drama. Daí a decisão de fazer 22 de Julho em inglês tão questionável.

Netflix/Divulgação

Greengrass escolheu uma equipe norueguesa e recriou com precisão angustiante o ataque de um militante de extrema direita que deixou 77 mortos e mais de 200 feridos na Noruega. A autenticidade visual, porém, não sustenta cada diálogo emocional pronunciado em outro idioma. Por ser uma produção da Netflix, o argumento de que é uma necessidade para a distribuição não existe. É uma pasteurização que se torna irônica principalmente dentro do seu contexto, já que a diversidade de povos e idiomas na atual Noruega é o que despertou a loucura da extrema direita.

Passada essa questão, Greengrass faz, como esperado, um filme tecnicamente competente. A reconstituição do ataque toma só o primeiro ato, sendo a maior parte dedicada a explorar as consequências de um evento traumático, para o réu e para vítima. De um lado o monstro (Anders Danielsen Lie), do outro o sobrevivente (Jonas Strand Gravli).

Por essa dinâmica, o roteiro baseado no livro de Åsne Seierstad quer entender o que aconteceu, mas também como é possível seguir em frente. A primeira questão encontra pequenas pistas, mas nunca uma resposta. O caminho mais simples é ver Anders Behring Breivik como insano, o mais assustador é saber que ele tinha plena consciência do que estava fazendo e quem estava machucando. Do outro lado, o jovem Viljar, antes aberto e cheio de planos para o futuro, se vê em um limbo, incapaz de ver além do ataque. A sua motivação passa a ser encontrar seu algoz novamente, dessa vez em um tribunal.

A civilidade norueguesa para julgar o homem responsável por um ato tão bárbaro é notável. Greengrass capta esse pragmatismo sem acusá-lo de frieza. Sua construção dessa história é em torno da esperança e o elenco corresponde parcialmente a essa visão. A escolha do idioma, porém, volta a se tornar incômoda. Cada momento de conexão emocional soa artificial. O idioma é intrínseco à história de uma nação, é parte de como um povo compreende fatos e expressa emoções. Subestimar isso e ainda buscar realismo visual é uma incoerência.

22 Jde Julho é no geral um bom filme, mas essa não era uma história para Greengrass contar. Na embalagem em que está inserida, essa busca por respostas termina em um lugar-comum: o bom continua bom, o mau continua mau.

Nota do Crítico
Bom