100 Noites de Desejo faz fábula feminista meio óbvia, mas ainda envolvente
Jovem elenco de estrelas empresta curiosidade para filme que poderia passar batido
Créditos da imagem: Cena de 100 Noites de Desejo (Reprodução)
100 Noites de Desejo é o tipo de filme temperamental que, se o seu nome não é Emerald Fennell e você não tem uma das maiores máquinas de publicidade de Hollywood te apoiando, poderia facilmente passar batido por cinemas e streaming. Adaptado da graphic novel de Isabel Greenberg pela diretora e roteirista Julia Jackman (Bonus Track), o longa se posiciona muito rapidamente como fábula, construindo um mundo de fantasia definido de maneira nebulosa para apoiar a sua história moralizante de opressão feminina e rebeldia.
O efeito, de certa forma, é tão atordoante quanto sedutor. Cherry (Maika Monroe) vive em um mundo fantástico de inspiração medieval, governado por um comitê dogmático de homens-pássaro que pregam acima de tudo a subserviência e o silêncio femininos. Ela se casa com Jerome (Amir El-Masry), que a trata com indiferença e se recusa a consumar a união, mesmo que isso signifique a anulação do matrimônio e a execução da esposa.
É nesse contexto que chega Manfred (Nicholas Galitzine), amigo cafajeste de Jerome, com quem ele faz uma aposta: o rapaz tem 100 dias para tentar seduzir Cherry e engravidá-la, enquanto o próprio Jerome faz uma “viagem de negócios” estendida. A única a defender a moça durante esse período é Hero (Emma Corrin), sua fiel criada, que tenta distrair Manfred contando histórias no melhor estilo As Mil e Uma Noites.
Os contos de Hero são encenados com capricho por Jackman, que cria uma atmosfera idílica só para quebrá-la com picos de tensão. 100 Noites de Desejo costura suas duas histórias com a agulha e a linha da retórica social que as une – este é um longa sobre as armadilhas impossíveis (frequentemente, letais) montadas no caminho das mulheres pelos homens que exercem o poder, e o estado de parálise insuportável no qual elas são colocadas caso não queiram cair em uma delas.
Jackman está engajada, portanto, na missão de construir um filme “excêntrico” não no sentido confortável que tem sido a pedra fundadora do cinema indie estadunidense, mas no sentido incômodo radical da palavra. O design de produção de Sofia Saccomani e o figurino de Susie Coulthard (Black Mirror), embora luxuosos, são registrados pela diretora de fotografia Xenia Patricia (Zodiac Killer Project) com faro quase maldoso para o estrago. Os ângulos nas grandes salas da mansão de Cherry são “errados”, a sensação de sufoco dos espartilhos que ela usa sublinhada com cuidado.
100 Noites de Desejo é lindo, enfim, mas também borbulha com certa expectativa de violência. Exemplo fácil: quando Galitzine aparece sem camisa, retornando de uma caçada com um presente para Cherry, é com o sangue do bicho que matou espirrado pelo peitoral, uma encarnação tanto da tentação quanto do perigo que o personagem representa. Mas Jackman também escolhe se apoiar nesses simbolismos porque entende que o filme que está fazendo não oferece tanto em termos de dramaturgia.
Talvez seja, de fato, a prerrogativa de uma fábula, mas 100 Noites de Desejo fica na superfície em sua celebração da contrariedade feminina, e das histórias que a fazem sobreviver para além da gana que os poderosos sentem de apagá-la. Dificilmente o espectador vai se pegar surpreendido pelos caminhos que esse discurso toma, ou pelo tom agridoce do final. Há sentimento aqui, sem dúvida – só o que faltou, mesmo, foi um ponto de vista original para levar o filme além disso.
100 Noites de Desejo
100 Nights of Hero
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