Coyote vs Acme une Looney Tunes e John Cena em comédia cheia de carisma
Mistura entre animação e live-action que quase foi engavetada é recheada de ironia e a inevitável nostalgia
A relação entre a trama e os bastidores de Coyote vs. Acme é uma pauta digna de atenção. Afinal de contas, o filme de David Gordon Green (O Exorcista: O Devoto, Halloween Ends: O Acerto de Contas Final) quase não viu a luz do dia, ameaçado de um engavetamento como manobra econômica pela Warner Bros. Discovery e salvo, em grande parte, por um movimento inesperado de empresas menores em Hollywood. Não deixa então de ser irônico que este filme seja sobre o Wile E. Coyote (e seu advogado vivido por Will Forte) processando a gigantesca fabricante de todas as armadilhas defeituosas que usou contra o Papa-léguas.
O paralelo sobre como as grandes corporações usam seu poder para silenciar forças menores, adiciona, sim, uma nova camada de significado ao filme, lançado no Brasil pela Paris Filmes e nos EUA pela Ketchup Entertainment, mas também é um mérito retroativo, e do qual Coyote vs. Acme não depende para ser bem-sucedido. A intenção original do projeto, que tem dedo de James Gunn, diretor de Superman e é presidente da DC Studios (estúdios da própria Warner), é explorar a fundo uma premissa divertida e aproveitar a dinâmica dos Looney Tunes no "mundo real” ao colocar lado a lado os personagens 2D das animações e pessoas em carne e osso.
É um feito que Green consegue com ajuda de um talentoso time de animadores, e o resultado é um filme que supera produções do tipo como Looney Tunes: De Volta à Ação (2003) e até Space Jam (1996) como a melhor fusão dessas duas estéticas. Aqui, há piadas desenhadas, filmadas e um mix inteligente dos dois tipos que aplica o tipo de dinâmica outrora exclusiva aos mascotes. Ver uma estrada normal ser sacudida como um tapete causa um fascínio imediato, e Green mais de uma vez encontra maneiras inteligentes de burlar o limite entre estes dois universos.
Pense no final de Space Jam, quando o braço de Michael Jordan se estica para enterrar a bola num momento digno do Pernalonga, mas aplique a ideia a todo o filme, com efeitos especiais melhorados e um timing cômico superior, e você entenderá o apelo de Coyote vs. Acme. Desde sua invenção até os tempos recentes, quando finalmente tiveram o filme que merecem, os Looney Tunes requerem de seus artistas a capacidade de inventar – situações, interações, brincadeiras e conceitos – e fugir das normas. Quando tudo é possível, de abrir um buraco no chão até flutuar no ar, cria-se um paradoxo. É mais difícil saber qual é a decisão criativa correta ou qual das infinitas possibilidades vai gerar a maior risada.
Na maior parte do tempo, Green abre a porta certa. Aqui e ali, ele e sua equipe encontram alguns limites. Forte, Lana Condor (como sua assistente) e John Cena (como advogado da Acme) fazem um bom trabalho, especialmente servindo como contraponto “sério” à loucura das figuras cartunescas no vai e vem humorístico do longa, mas tudo envolvendo humanos é fundamentalmente menos interessante. Seja quando falamos de seus dilemas, ou quando eles precisam carregar uma cena sozinhos, há menos imaginação. Um problema recorrente em filmes que adaptam IPs conhecidas e misturam criaturas em computação gráfica com humanos, como em Transformers e a franquia Godzilla x Kong. No fim, quase sempre o núcleo humano é quem sofre mais.
O que não quer dizer, necessariamente, que o foco do filme em Wile E. Coyote seja algo inovador, mas há uma razão para a durabilidade cinematográfica do jogo de gato e rato que o predador brinca, e sempre perde, com o Papa-léguas, e a noção básica de tentar e tentar a mesma coisa sem sucesso. Coyote vs. Acme aproveita bem essa dinâmica, criando um laço até comovente com o coiote e levando a rivalidade com o pássaro veloz a uma conclusão satisfatória, ainda que um tanto quanto previsível.
Combinado com o uso divertido de outros Looney Tunes aqui e ali, e uma construção de mitologia surpreendentemente forte em relação à Acme e por que seus produtos são defeituosos, o filme oferece bastante aos fãs desses personagens, mas funciona de maneira geral pela boa execução de uma boa interessante. Funciona bem o suficiente para considerarmos como infeliz a decisão da WBD de desistir de seu lançamento.
Este é um projeto sobre a luta de dois perdedores para expor ao mundo uma verdade, e seria uma pena se, tal qual a Acme e seus segredos, Coyote vs. Acme fosse trancado a sete chaves. Há muito amor e criatividade em tela para que isso não seja compartilhado.
Coyote vs. ACME
Coyote vs. Acme
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