Meirelles: Ideia de Corrida dos Bichos veio antes de Jogos Vorazes e Round 6
Cineasta divide crédito com Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento no filme do Prime Video
Créditos da imagem: Cena de Corrida dos Bichos (Reprodução)
Quando Fernando Meirelles está em um set de filmagens, a atmosfera muda. O cineasta brasileiro, que se transformou em gigante do cinema global após o sucesso do seu Cidade de Deus (2002) e desde então dirigiu títulos de sucesso como O Jardineiro Fiel (2005) e Dois Papas (2019), conduz um set de gravações com a mão segura de quem faz isso há muito tempo, a visão afiada de quem sabe a história que quer contar, e o espírito colaborativo de quem sabe que o cinema é arte coletiva.
O Omelete foi testemunha desse estilo de direção quando visitou o set de Corrida dos Bichos, em meados de 2024. No dia em questão, Meirelles conduzia uma cena de grande porte ambientada na mansão decadente de Abu (Rodrigo Santoro), um dos chefes do "jogo do bicho futurista" apresentado no longa, onde ricaços comandam tudo e os pobres se vestem como animais para tentar ganhar uma corrida pelas ruas abandonadas do Rio de Janeiro.
Durante a gravação de um take, um close no rosto da atriz Isis Valverde (que interpreta uma mulher infiltrada nesse mundo dos "chefões" da Corrida), Meirelles aproximava a câmera dela e dirigia: "Nó na garganta, agora". Poucas tomadas depois, o cineasta precisava coordenar dezenas de figurantes que entravam em cena como escravos, apresentados ao vilão Abu pelo personagem de Leandro Firmino. Em ambos os casos, o processo se mostrou liso, mas também rico - as imagens de tons quentes que víamos na saída de câmera eram o resultado sintetizado de um processo criativo afinado à identidade do filme.
Daí talvez tenha vindo a ideia do Prime Video de trazer Meirelles como codiretor do projeto, idealizado originalmente por Ernesto Solis. A experiência de um temperando o conhecimento profundo do outro sobre a história. A seguir, Meirelles conta ao Omelete um pouco deste processo.
OMELETE: Fernando, você consegue falar um pouco da sua função dentro desse ecossistema do Corrida dos Bichos? Sei que são três diretores envolvidos…
MEIRELLES: Essa história não é minha, é do Ernesto Solis. O Ernesto criou essa história há mais de 15 anos. Depois que ele criou, aí vieram Jogos Vorazes, outros filmes e séries que são próximos, mas ele já tinha pensado nesse filme e já estava tentando vender esse filme dez anos antes do Round 6. Só que os caras estão em mercados que conseguiram financiar e fizeram, e ele está no Brasil – é um negócio caro, ele não conseguiu financiar. Só agora a Amazon resolveu apostar na história. E eu entrei nesse filme porque o Ernesto, apesar de ter tido a ideia, escrever o roteiro e ser meio showrunner deste filme, não tem experiência de filmagem. Então, num momento de final de acerto, a Amazon falou: "Precisa entrar alguém que dê apoio a ele”. Eu era só produtor do filme, mas daí entrei. Então agora a gente divide: o filme tem um diretor que faz ação, que é o Rodrigo Pesavento, e aí a parte de dramaturgia sou eu e o Ernesto. A gente dividiu: "Essas cenas você faz, essas eu faço". Amanhã, por exemplo, é só o Ernesto que filma. Eu vou, fico lá acompanhando, e quando eu filmo — hoje, por exemplo — ele estava aí também. Está sendo interessante esse processo, a gente vai trocando ideias. E agora o Ernesto já pegou totalmente o jeito, depois de algumas semanas filmando. Amanhã, se eu não quisesse ir no set, eu não precisava.
OMELETE: E de onde vem a vontade de fazer esse tipo de parceria, trabalhar de certa forma como “diretor contratado”, tendo toda a bagagem que você tem e a voz autoral que a gente já conhece?
MEIRELLES: Eu não tenho essa vaidade de "eu sou o dono da ideia, eu sou o autor". O meu interesse em fazer cinema é o ofício. Eu adoro estar no set, conversar com ator: "Vamos pôr a câmera daqui. Não, espera aí, vamos fazer esse movimento. E se a gente usasse essa música?". É o ofício mesmo, a carpintaria do cinema. Sugar [série do Apple TV na qual Meirelles dirigiu cinco episódios], por exemplo, era uma história que eu tinha alta desconfiança. Achava que aquela história não parava em pé – nem poderia estar dizendo isso, mas tinha muitos problemas com ela. Por outro lado, o processo era muito interessante para mim. Eu nunca tinha feito nada dentro do sistema de televisão americano, que é muito maior que o de cinema. Eu entrava lá para fazer uma ceninha que são dois caras encostados na parede, falando, e tinham literalmente 35 caminhões e 300 pessoas paradas, me esperando. Você parava um quarteirão inteiro para fazer uma bobagenzinha que, aqui no Brasil, você faz com o iPhone na mão. Eu falei: "Vai ser interessante conhecer isso". E o processo mesmo, a relação com o Colin Farrell nesse projeto foi incrível. Então eu entro pela experiência, para conhecer equipes. Às vezes eu estou realmente de operador de câmera, mas gosto muito, o importante é estar fazendo!
*Corrida dos Bichos chega ao catálogo do Prime Video em 7 de agosto.
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