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Coração de Tinta - O Livro Mágico

Adaptação do livro de Cornelia Funke conserva ponto fonte na metalinguagem

Marcelo Hessel
24.12.2008
14h00
Atualizada em
21.09.2014
13h43
Atualizada em 21.09.2014 às 13h43

A fantasia infanto-juvenil Coração de Tinta, escrita pela alemã Cornelia Funke, se encaixa naquela categoria de livros cujo objetivo é incentivar a prática da leitura. Não daria pra ser mais metalinguístico: o protagonista da história tem o poder de dar vida aos objetos e seres da ficção, quando os lê em voz alta. Esse didatismo é o atrativo principal do livro e não seria diferente com o filme, Coração de Tinta - O Livro Mágico (Inkheart, 2008).

Brendan Fraser vive Mo Folchart, pai de família que descobre ser um Língua Encantada tarde demais: quando ele lia um trecho de Coração de Tinta para sua filha, os vilões do livro ganharam vida e, em troca, a esposa de Mo foi parar dentro da ficção. Desde então ele jamais voltou a ler em voz alta, e passa anos a fio, de sebo em sebo, atrás de uma nova edição de Coração de Tinta para tentar recuperar sua mulher.

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O filme dirigido pelo inglês Iain Softley (A Chave Mestra) começa, sem explicar muito, investindo no suspense, no ponto em que Mo encontra uma edição rara do livro-dentro-do-livro. Não demora até que ele encontre também Capricorn (Andy "Gollum" Serkis), o vilão de Coração de Tinta que quer os poderes de Mo para consolidar seu reinado do mal no mundo real.

A partir daí, Softley apanha um pouco para seguir o vaivém do roteiro de David Lindsay-Abaire. Fica evidente que o trabalho de adaptação do texto privilegiou a compressão da ação, ao invés de eliminar trechos do livro e estender os pedaços fortes. É uma narrativa corrida, enfim, com Brendan Fraser e aliados vagando de um lado para outro meio à deriva. A cara de perdido, que o ator genericamente replica em todos os seus filmes de fantasia, não ajuda.

No meio disso tudo resta ao espectador aproveitar, justamente, a metalinguagem. Surgem em cena referências a O Mágico de Oz, do Totó aos macacos voadores, a Ali Babá e os 40 Ladrões, Rapunzel... Os diálogos de Jim Broadbent (no papel do escritor de Coração de Tinta) com os personagens que ele criou são divertidos. E tem a piada interna de Jennifer Connelly viver brevemente a esposa de Paul Bettany - como é na vida real.

Ao final, fica a impressão - não rara, aliás - de que o livro não teve uma adaptação à altura. O texto preserva sua graça, mas a ação filmada ficou aquém.