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Controle Absoluto

Suspense que leva a marca Spielberg reúne todos os elementos para agradar o público

Marcelo Hessel
25.09.2008
16h00
Atualizada em
21.09.2014
13h40
Atualizada em 21.09.2014 às 13h40

Steven Spielberg não chegou onde chegou por acaso. Seu dom para entender o que agrada o público é único, e passa por procedimentos que não têm nada de sobrenatural. Para produzir Paranóia, por exemplo, Spielberg exibiu para audiências selecionadas Janela Indiscreta. No fim das contas, levou na cabeça um belo processo por plágio, mas, ao determinar quais elementos do clássico de Alfred Hitchcock ainda agradam o público de hoje, conseguiu formatar um dos sucessos inesperados da alta temporada do cinema nos EUA no ano passado.

Naquela ocasião, Spielberg entregou o filme na mão do diretor D.J. Caruso, até então conhecido por trabalhos inexpressivos como Roubando Vidas e Tudo por Dinheiro, e conseguiu emplacar como protagonista o seu protegido Shia LaBeouf (feito que Spielberg já tinha alcançado em Transformers). É a mesma equipe, Caruso e LaBeouf, que em breve começa a tirar a graphic novel Y: O Último Homem do papel e que agora responde por Controle Absoluto (Eagle Eye, 2008), mais um filme construído para agradar, independente de suas qualidades de fato.

controle absoluto

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Eagle Eye

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O roteiro escrito a oito mãos - John Glenn, Travis Wright, Hillary Seitz e Dan McDermott - é inspirado em uma idéia de Spielberg. LaBeouf faz Jerry, jovem errante que trabalha com máquinas de xerox numa lojinha espirituosamente chamada Copy Cabana. O irmão gêmeo de Jerry, militar aplicado, cidadão-modelo, acaba de falecer. No momento em que volta pra casa, depois do funeral, Jerry tem sua vida virada de cabeça para baixo. Do nada, ele é acusado de terrorismo.

Paralelamente, somos apresentados a Rachel (Michelle Monaghan), mãe solteira cujo filho está pegando um trem para Washington, onde tocará com uma orquestra infantil para o presidente dos EUA. Assim como Jake, sem motivo aparente, Rachel se vê envolvida numa conspiração sem rosto. Perseguidos pela lei, os dois passam a receber ordens por telefone de uma misteriosa voz feminina, sem saber onde tudo isso vai dar. Sabem apenas que seguir as ordens é sua única opção.

Há requintes de Jogos Mortais nesse jogo de pega-pega que retrata de forma crítica a Doutrina Bush, segundo a qual, basicamente, todo cidadão sob as onipresentes câmeras de vigilância espalhadas pelo país é culpado até que se prove inocente. Temos então esse fiapo de trama politizada norteando Controle Absoluto, mas não convém exigir que o filme explique - e, principalmente, justifique - o que vem a seguir. É um queijo suíço de verossimilhanças, reviravoltas frágeis que existem pelo simples fatos de serem... reviravoltas.

E aí entra aquela coisa do filme feito para agradar. Quem espera correria do começo ao fim não tem muito do que reclamar deste suspense. LaBeouf e Monaghan batem perna sem parar, e Caruso os filma de forma competente, com a câmera muito próxima da ação o tempo inteiro. Se a perseguição de carros do começo tivesse sido filmada por Michael Bay, por exemplo, teríamos veículos levantando vôo, dando piruetas, e a câmera registrando de longe. O que Caruso faz é privilegiar o choque - o foco não aberto nas acrobacias, e sim fechado nos estragos.

Essa proximidade da ação é o que dá a Controle Absoluto uma sensação de urgência que não passa. Se Caruso não fosse tão feliz na execução dos tempos fortes (execução essa que abraça o humor em alguns momentos, como válvula de escape), os buracos do roteiro, a começar pela premissa estapafúrdia, virariam um grande buraco negro, sugando o longa por inteiro. Pois basta o ritmo do filme dar uma pausa para percebermos como as informações são jogadas e mal encadeadas.

Aliás, a comprovação maior de que Controle Absoluto não é mais do que uma taquicardia passageira é seu final. Encerra-se o suspense e o filme termina de repente, sem maiores consequências. Quem deve sofrer a consequência mesmo é Steven Spielberg, se interpretarem que aquele desfecho copiado de outro clássico hitchcockiano vale mais um processo por plágio.

Assista aos clipes do filme

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